A indústria do vinho está neste momento a passar um momento transformativo de Valor por Volume. Este é um fenómeno global onde se estão a registar menos vendas de garrafas de vinho, mas os valores faturados continuam a aumentar. Isto deve-se a dois fatores:
consciência de saúde a baixar o consumo;
premiumização a aumentar os preços.
Em termos globais, consome-se menos e há um apetite por pagar mais por cada garrafa.
Onde se situa Portugal no futuro do mundo do vinho?
Nós somos o maior consumidor de vinho do mundo: 62 litros por ano por pessoa. A epítome de Volume. Em termos globais os hábitos de consumo estão a mudar, contudo em Portugal há uma resistência natural a esta tendência, na minha opinião, porque o vinho é abordado como um alimento, e o nosso nível de exigência é modesto.
Sendo assim, um produtor português tem que focar mais na exportação.
Em Portugal, acontece que no extremo, há vinho a ser vendido ao mesmo preço de água engarrafada. Isto num produto agrícola, que precisa de plantio, poda, inspeção, tratamentos, vindima, fermentação, engarrafamento, trabalho comercial e envios.
Este modelo é insustentável para os nossos solos agrícolas e ao mesmo tempo está desalinhado com os novos hábitos de consumo globais.
Para contextualizar um pouco, o mercado global de vinho está avaliado entre 340 e 560 mil milhões de dólares, com uma estimativa de crescimento anual entre 3% a 6% até 2033. Antes de mais, temos que rematar o motivo desta diferença significativa nos valores. Por um lado temos um cálculo mais sóbrio feito pela Mordor Intelligence, e por outro temos cálculos feitos pelo IMARC Group e Fortune onde as margens da restauração de luxo são utilizadas um pouco acima da sua média (que é já mais elevada que a da indústria de vinho convencional como supermercados, restaurantes, lojas e bares de vinho).
Portanto, ainda que em valor o mercado continue a expandir-se, a quantidade de vinho consumida tem vindo a cair. Muita uva, valorizada.
Contudo vários governos, incluindo o Português, estão a pagar para se arrancar vinhas e produzir menos. Isto pode parecer contra-intuitivo e não acontece por um só motivo:
Existe um desequilíbrio entre a oferta e a procura. Adegas carregadas desvalorizam as garrafas. O que significa que o mesmo esforço não paga as mesmas contas;
Está a ocorrer uma mudança nos hábitos de consumo. Vinhos tintos carregados, pesados e alcoólicos não atraem a nova geração. É irónico, porque é por este tipo de vinhos que Portugal é conhecido = mais vinha para arrancar;
Vidro, fertilizantes, transporte. Tudo frentes que encareceram bastante nos últimos anos.
O que toda a gente quer é o sagrado valor acrescentado. Mas, para conseguir isto, não basta produzir bom vinho.
O nosso clima, os solos, as uvas autóctones, o conhecimento, a cultura e o acesso ao mercado europeu e global são aspetos que gritam potencial! O vinho é talvez o produto que consegue absorver mais valor acrescentado da história da humanidade, como evidenciado pela França, Itália e Espanha. Estes três países representam 50% da produção mundial.
A França cobra em média 6,50 euros por litro exportado. Portugal cobra 3 euros por litro.
Se conseguirmos igualar uma realidade que já está em prática, como a francesa, o contributo para o Produto Interno Bruto (PIB) da indústria do vinho duplica sem sequer se plantar uma vinha nova.
O Produto Interno Bruto (PIB) é uma métrica económica que representa o valor total dos bens e serviços produzidos por um país num determinado período de tempo. Engloba as despesas dos consumidores, os investimentos das empresas, as despesas públicas e as exportações líquidas. O PIB é um indicador-chave do desempenho económico de uma nação e é útil para avaliar tendências, orientar decisões políticas e comparar a força económica relativa de diferentes países.
A Denominação de Origem Protegida (DOP) mais antiga da história é do Douro, com o seu vinho do Porto. Conseguimos ver a dimensão que esta bebida conseguiu, reconhecida por todo o mundo com um perfil de sabor distinto. E apesar de se conseguir fazer vinho fortificado em qualquer sítio onde existam vinhas, a coroa deste estilo diz Douro e está nas caves de Gaia.
Para reforçar a ideia do potencial que temos: Portugal tem acesso a uma variedade enorme de locais com características específicas para produção de vinho. Frio, húmido e Atlântico no Minho; até continental, árido e quente no Alentejo. Com variações de altitude, solos e, acima de tudo, castas. Fruta presente nestas regiões há séculos, adaptada ao clima e pronta para amadurecer e enriquecer a fermentação. Todas estas variações aparecem no copo, se o vinho for feito para permitir tal.
Para acrescentar valor, é fundamental ter vinho que comunique de onde é! O que os franceses chamam de terroir. O conceito que lhes permitiu pensar, manter e comunicar as peculiaridades de cada vinha. Esta palavra engloba as ideias de clima, solo, casta, enólogo, quinta, tudo num. A expressão do terroir!
Nas imagens abaixo podemos ver as regiões produtoras em Portugal. Todas diferentes entre si, pelas combinações de solo, clima, castas e culturas!

Mapa Geológico de Portugal.
Apesar de estar aqui a falar de valor, de crescimento (estou a tentar conquistar as coisinhas sexy), a produção de vinho deve ser algo diametralmente oposto a “Indústria”. É agricultura, e quanto mais local se mantiver, mais valor acrescentado conseguirá absorver.
Em França, o vinho (de qualidade) divide-se em região, sub-região, aldeia, classificação, vinha, parcela na vinha e produtor. São os vinhos mais caros do mundo. Há produtores em voga, com garrafas disponíveis entre 80 a 150 euros (como Sylvain Pataille, que vende tudo), e produtores de legado com as garrafas mais caras de sempre, entre os 3 mil euros e os 850 mil euros, como Domaine Romanée-Conti (que vende tudo na mesma).
Paralelo à ressurgência de vinil e fotografia analógica, os jovens estão dispostos a menos conveniência e a pagar mais por carácter.
É verdade que o mundo do vinho intimida e parece pouco acessível. Parece altivo, alienígena, fora do alcance. Isto são construções sociais. A música sofre de algo parecido. Há um elemento mágico no vinho, que está disponível para quem quiser saber. Tal como nas outras artes.
A mudança de Volume para Valor é feita pelo consumidor. Um consumidor que quer saber o que está a consumir. Que tem hábitos de consumo diferentes da geração anterior.
Mas por outro lado, também se pode ligar o menor consumo a uma certa erosão de práticas sociais. As pessoas não se juntam como juntavam, e vinho é sem dúvida uma bebida social.
Por isso, normalizem ir ao café e partilhar uma garrafita mais cara, mas de um produtor específico, de uma certa zona do país, daquele ano que foi mais frio, e daquela casta que já provei antes! Ao fazer isto, estão a sinalizar ao agricultor/produtor que pode concentrar-se mais na identidade da sua quinta, e menos em chamar a atenção de grandes cadeias de distribuição.
Só temos a ganhar se começarmos a beber menos e melhor. O menos é opcional, mas o melhor é obrigatório e urgente! Para além de não estarmos a preencher o espaço que nos pertence no mercado global, estamos a ignorar uma fonte de prazer única e original. O vinho é um produto agrícola que comunica cultura, clima, filosofia e técnica. Tudo isto pode-nos enriquecer.
Artigo escrito por Peter Carvalho, importador de vinhos português em Roterdão.





