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Festas Populares: a App dos Arraiais

Stéphane Duarte, Fundador.

Jun 10, 2026

“Quero ir com os meus amigos aos Santos Populares de Lisboa, mas não faço ideia onde ir.”

Foi esta a dúvida que ecoou na minha cabeça em maio de 2025. Como bom Millennial, o passo seguinte foi recorrer às redes sociais, onde a informação existia, mas dispersa por páginas e páginas de associações de moradores, coletividades e juntas de freguesia. Pelo meio, encontrei também no TikTok o famoso “ficheiro Excel”, que já condensava alguma da programação, mas ainda assim não toda.

Se eu tinha este problema, certamente mais alguém o teria. Ainda que o Excel resolvesse parte da questão, sabemos todos que não é propriamente prático abrir este tipo de ficheiros num telemóvel, que é o único dispositivo que levamos connosco quando saímos à rua. O pensamento seguinte foi inevitável: “devia haver uma aplicação”. E, se não havia, criava-a eu. E assim nasceu a app Festas Populares.

Desafio 1: Eu nunca fiz uma aplicação

Próximo passo? ChatGPT.

Era bastante claro para mim o que queria desenvolver como MVP (sigla para produto mínimo viável, do inglês Minimum Viable Product): uma lista simples com a programação dos arraiais, mostrando quem atuava, quando e onde. Depois de definirmos a stack tecnológica, a implementação acabou por ser relativamente simples. Seguiu-se a introdução manual de todos os eventos na base de dados e, quatro dias depois, o MVP estava pronto.

Desafio 2: Publicar a aplicação

Estava numa corrida contra o tempo. Os Santos já tinham começado e eu queria partilhar o projeto o mais rapidamente possível.

Mais uma vez, com a ajuda do ChatGPT, descobri que publicar uma aplicação na App Store (para iOS) exige uma conta de programador, com um custo anual de cerca de 100 euros. Primeira despesa. O projeto deixou de ser algo onde investia apenas o meu tempo para passar a representar também um investimento financeiro.

Paguei, submeti a aplicação e esperei. Para minha surpresa, o feedback da Apple chegou rapidamente: aplicação aprovada. Boom. Estava disponível para toda a gente.

Pelo caminho descobri também que a Google exige um período de testes de 14 dias com pelo menos 15 utilizadores antes da publicação de novas apps na Play Store. Ora, duas semanas depois, os Santos já teriam terminado, pelo que risquei completamente o Android da minha lista de prioridades.

Desafio 3: Marketing

Instalei a aplicação. Funcionava perfeitamente. Mas e agora? Como é que deixava de ser apenas minha e passava a ser uma ferramenta para todos? Gravei um TikTok.

O que aconteceu a seguir superou completamente as minhas expectativas. O vídeo teve um alcance orgânico enorme: dezenas de comentários, centenas de gostos, milhares de downloads. Aquilo que era apenas meu passou a ser, depois de um simples vídeo a explicar o projeto, de quase dez mil outras pessoas. Top 1 na App Store durante dias e dias.

Desafio 4: Volume

Com o aumento do número de utilizadores veio a dor de cabeça seguinte. A aplicação não estava preparada para tantos acessos e os custos de serviços como a base de dados dispararam. Seguiram-se atualizações atrás de atualizações para melhorar estruturas de dados, otimizar consultas e implementar mecanismos de cache.

A partir daqui, o conceito estava validado. Esta era uma aplicação necessária, útil para as pessoas e um projeto que fazia sentido continuar. Seguiu-se um verão inteiro a desenvolver uma aplicação de backoffice para introdução de eventos, a publicação da versão Android e a recolha e divulgação de festas populares por todo o país.

A aplicação cresceu e deixou de ser apenas um MVP para Lisboa para se comportar como uma verdadeira plataforma de descoberta de festas em Portugal inteiro. Um ano depois, permite que qualquer pessoa adicione um arraial, apresenta eventos num mapa interativo e inclui funcionalidades como favoritos e notificações.

Desafio 5: Conteúdo

Criar a aplicação foi relativamente simples. O verdadeiro desafio é alimentá-la. Não existe uma base de dados nacional de festas populares. A minha app é essa base de dados.

Cada associação, coletividade, junta de freguesia ou município comunica os seus eventos da forma que entende: através de cartazes, publicações nas redes sociais ou pequenos sites locais. Durante meses, grande parte do trabalho consistiu em procurar informação, confirmar programas e introduzir eventos manualmente. À medida que a aplicação cresceu, comecei também a receber contributos dos utilizadores, o que transformou o projeto num esforço coletivo.

Hoje, a Inteligência Artificial (IA) ajuda-me a automatizar parte desse processo, mas continuo a acreditar que o valor da aplicação está menos no código e mais na capacidade de reunir, validar e organizar informação que, de outra forma, estaria dispersa.

Desafio atual: Monetização

Infelizmente, monetizar o projeto tem sido mais difícil do que imaginei.

As marcas que estão presentes em muitos destes eventos são difíceis de contactar e, quando o contacto acontece, ainda não reconhecem o valor da plataforma. O que procuro são parcerias integradas no contexto da aplicação, através da promoção e destaque de arraiais organizados por entidades privadas, mas abertos ao público.

Tenho a sensação de que muitas marcas continuam a privilegiar meios de comunicação mais tradicionais, como a imprensa ou a televisão, para divulgar este tipo de eventos. Tem sido desafiante comunicar o valor de estar presente precisamente na aplicação que as pessoas utilizam para decidir onde vão sair.

Outra possibilidade seria o financiamento público, uma vez que a plataforma divulga maioritariamente eventos promovidos por entidades públicas, como juntas de freguesia e municípios. Mas honestamente é uma via que ainda não explorei.

Festas Populares de 2026

À medida que a aplicação cresce, vou percebendo que deixa de ser apenas um projeto pessoal. Quando a utilizei pela primeira vez, era apenas uma ferramenta feita para mim e para os meus amigos. Se falhasse, pouco importava. Mas quando começam a chegar milhares de utilizadores, a realidade muda. De repente, há pessoas a confiar na aplicação para decidir onde vão naquela noite, para descobrir uma festa na sua terra ou para encontrar um concerto que não querem perder.

Com essa confiança veio também uma responsabilidade que eu não esperava sentir. Quando surge um erro, quando um evento tem informação incorreta ou quando um utilizador envia uma mensagem a reportar um problema, já não é apenas um bug na aplicação. É alguém que conta com ela e que fica desiludido.

Ainda hoje, sempre que recebo uma mensagem de alguém a agradecer porque descobriu uma festa através da aplicação, lembro-me de que por trás dos números existem pessoas reais. E isso continua a ser uma das maiores motivações para manter o projeto vivo.

À data deste artigo, 9 de junho de 2026, os números continuam a surpreender-me. Nos últimos 30 dias, a aplicação registou 82 mil sessões e 29 mil utilizadores. Para um projeto pessoal, desenvolvido uma ou duas horas por dia, no canto do meu quarto, este alcance parece-me extraordinário.

Obviamente, o projeto ainda não é sustentável. Não se financia a si próprio e exige atenção diária. Não sei qual será o seu futuro. Mas, enquanto continuar a dar-me prazer construí-lo, continuará a existir.

Nem que seja por mais uma época de festas de verão. Viva as Festas Populares.

Artigo escrito por Stéphane Duarte, fundador da Festas Populares, no dia 9 de junho de 2026. Publicado no dia 10 de junho de 2026.

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