Reid Hoffman, co-fundador do LinkedIn e membro da Máfia do PayPal, escreveu uma vez que criar uma empresa é equivalente a saltar de um penhasco e montar um avião durante a queda. Não vou negar, é uma das minhas analogias favoritas no que toca a startups.
Já tive o privilégio, ou o azar, dependendo da perspetiva, de fazer parte de 4 startups. Dessas 4, todas elas me provocaram, mais cedo ou mais tarde, calafrios semelhantes a saltar de penhascos (e também já saltei de alguns, na Ilha da Madeira). De facto, a sensação de queda livre faz parte do processo de construir uma startup. Mas a responsabilidade de montar o avião é uma sensação mais exclusiva, reservada aos responsáveis pela ideia do salto… os fundadores.
E nem sempre é possível, à partida, montar o avião. A grande maioria das startups morre. Os aviões ficam por construir e os fundadores simplesmente caem. Não há nada de errado nisso, business as usual, como diriam os norte-americanos.
Há infinitas razões para as startups falharem, a maior parte delas descrita em livros de gestão. Algumas são lógicas e outras não. Algumas poderiam ser previstas, outras não. Business as usual.
No entanto, toda a teoria produzida pelos Harvard Business Review desta vida não é suficiente para justificar todas as mortes (e todos os sucessos) de todas as startups. Em qualquer incubadora que se preze e em qualquer programa de aceleração digno, todos os players sabem que há uma dose de sorte necessária para que um projeto de garagem um dia seja um Unicórnio. Business as usual? Nem por isso. A definição de Unicórnio transcende o típico e implica algo de extraordinário…
Um Unicórnio é uma startup avaliada em mais de mil milhões de dólares. O termo, cunhado em 2013 pela investidora de capital de risco Aileen Lee, ilustra a raridade de tais empreendimentos bem-sucedidos. Na altura, existiam 39 empresas deste tipo; atualmente, existem mais de mil a nível mundial. Portugal pode orgulhar-se de ter os seguintes unicórnios:
Outsystems, Talkdesk, Feedzai, Remote, SWORD Health, Anchorage e Tekever. Queres descobrir mais sobre estas criaturas míticas em português? Espreita o livro "Unicórnios Portugueses" da jornalista Ana Pimentel.
Também não vou negar que tenho prateleiras cheias de livros sobre Unicórnios, incluindo a bíblia sobre Unicórnios Portugueses escrita por Ana Pimentel. É, objetivamente, um guilty pleasure porque, para qualquer pessoa que tenha trabalhado no ground zero de múltiplas startups, as histórias das grandes empresas são tão úteis quanto ficção científica. Servem de terreno fértil para ideias e quiçá inspiração, de resto são universos completamente diferentes.

Conjunto de guilty pleasures pouco úteis para fundadores em estágios pre-seed/seed.
Portanto, há o Unicórnio e há a startup. Se 90% das startups morrem e são esquecidas, de que servem os livros sobre os Unicórnios? O quão relevante são, para os fundadores a construir aviões em queda livre, as histórias mirabolantes de empresas tão raras quanto criaturas míticas?
Prometo que nem de inspiração servem. Quem está em queda livre não precisa de mais inspiração para construir um avião… um paraquedas chega!
Não quero, com isto, passar a ideia de que os livros sobre Unicórnios e outras grandes empresas são inúteis. Não são. O Harvard Business Review precisa de material para nós escrevermos a recomendação da edição semanal da nauta. Mas também não são livros para fundadores, por muito que alguns deles sejam escritos por fundadores (ou os seus ghost writers).
O que quero transmitir é que há uma lacuna nos ecossistemas de empreendedorismo, especialmente em Portugal e em português de Portugal: o testemunho de fundadores de startups em fases pre-seed ou seed!
Pré-seed é o financiamento feito no início da vida de uma startup, mesmo antes das rondas oficiais de investimento. Esta fase acolhedora é apropriadamente designada por financiamento “pré-semente”. Quem é que o contribui nestes primeiros tempos? Normalmente são os próprios fundadores, a sua família e amigos mais próximos. É como plantar, e regar, as sementes para um futuro jardim repleto de árvores com o fruto proibido: lucro!
A Ronda Seed é a primeira fase formal de financiamento de uma startup. Nesta etapa inicial, os fundadores procuram investidores dispostos a apostar na ideia do negócio, ainda em fase embrionária, quando muitas vezes existe apenas um protótipo, um plano sólido e uma equipa dedicada.
O objetivo da ronda seed é angariar capital suficiente para validar o produto ou serviço, desenvolver o negócio e dar os primeiros passos no mercado.
Este tipo de ronda é comum no ecossistema de inovação e tecnologia e é frequentemente seguido por outras rondas de investimento (como a Série A).
Esta lacuna não é imediatamente óbvia. Startups nesta fase não costumam ser, tecnicamente, startups de um ponto de vista legal. É um dado adquirido que muito provavelmente vão deixar de existir em breve e, sendo assim, dita o senso comum que não vale a pena prestar-lhes muita atenção.
Como ninguém presta atenção, as suas histórias são esquecidas.
De um ponto de vista utilitário, este é um fenómeno negativo para o ecossistema do empreendedorismo. Se eu estou em queda livre a tentar montar um avião, de que me serve o manual de instruções, repleto de enviesamentos de sobrevivência, de alguém que vive num palácio cheio de Unicórnios? Era mais útil ter os testemunhos de vários outros em queda livre, saber o que funciona e o que não funciona (mesmo que 90% sejam histórias de fracasso).
E… mesmo de um ponto de vista do entretenimento, também é muito mais interessante a história de sobrevivência in media res.
Isto é: ler sobre como a NVIDIA se tornou a única de 30 empresas a sobreviver, é interessante… mas não é tão interessante sobre ler como a próxima “NVIDIA” está atualmente a sobreviver (mesmo que para isso tenha de ler sobre 30 empresas semelhantes, todas na mesma situação).
É necessário outro paradigma.

Assim, no meio das milhares de analogias que o empreendedorismo gera todos os anos, desde a construção de aviões em queda livre até à pirataria de Diogo Mónica (co-fundador da Anchorage)… venho propor uma nova entrada: o fundador, tal como Ulisses na Odisseia!

Ulisses alcança um Unicórnio, segundo o ChatGPT.
A Odisseia de Ulisses é, no fundo, a história de um empreendimento: o regresso de Ulisses a casa após a Guerra de Troia. Mas o que a torna eterna não é o destino, é o caminho cheio de desvios, de provações, de enganos e de tentativas sucessivas de voltar ao rumo certo. Ulisses não é o típico herói de Hollywood. É o herói que improvisa constantemente e que, palavra após palavra, vai construindo a seu regresso a casa.
Tal como os nautas d’Os Lusíadas de Luís de Camões, sem dúvida devido ao precedente da Odisseia, a história de Ulisses começa in media res. O clímax da sua história, o regresso a casa e à sua amada Penélope, não é um dado adquirido quando somos introduzidos à sua epopeia. Ao seu empreendimento.
Em múltiplas ocasiões, Ulisses pensa que está perto do seu objetivo… apenas para o destino (ou os Deuses) o afastarem do sucesso uma vez mais. Soa a algo semelhante?
Mais importante, Ulisses, por muito inteligente e engenhoso que seja, tem apenas uma ferramenta infalível - a palavra. Palavra a palavra e narrativa a narrativa, é Ulisses, e mais ninguém, que constrói a história do seu regresso. Contar histórias, storytelling, como escreve o Harvard Business Review, é a ferramenta essencial dos fundadores, tal como o foi para Ulisses ao longo da Odisseia.
Para construir um empreendimento, os fundadores têm de convencer co-fundadores, futuros utilizadores ou clientes, investidores, trabalhadores e, eventualmente, a opinião pública. Afinal, para que serve o famoso pitch?
Um pitch é uma apresentação curta e persuasiva utilizada para comunicar de forma clara e objetiva uma ideia, projeto, produto ou negócio, geralmente com o objetivo de atrair interesse, apoio ou investimento. Um pitch eficaz destaca o problema a resolver, a solução proposta, o público-alvo, o modelo de negócio e o potencial de crescimento. É comum em contextos empresariais e de empreendedorismo, onde o tempo é limitado e a capacidade de captar atenção é essencial.
Ulisses também teve de convencer os seus camaradas, os seus inimigos, os deuses e, eventualmente, a própria Penélope. E sem pitch decks!

O único que não precisou da persuasão de Ulisses foi Argos, o seu cão. O melhor amigo do Homem.
Mais uma vez, inteligência e engenho são úteis (e muitos argumentarão essenciais) para construir uma empresa de sucesso. Mas sem Ulisses, não há Odisseia. E sem Ulisses também não há avião construído em queda livre.
Mas nem todos os Ulisses têm a sua Odisseia… e poucos, muito poucos, podem narrar a sua aventura in media res. Essa lacuna, que os leitores da nauta tornaram evidente no último inquérito feito por nós, enfraquece o ecossistema do empreendedorismo.
Por isso, ao fim de alguns meses trabalho, vamos lançar hoje uma nova rubrica na nossa plataforma. Odisseias será o espaço onde os fundadores poderão contar a sua história, in media res, em português de Portugal.

Estás a construir um avião em queda livre? Ótimo! Queremos saber como foste parar a essa situação, como está a correr e para onde vai esse avião, se o conseguires construir. Se falhares, não te preocupes… estamos todos em queda livre! Mas agora temos palco e audiência: tudo o que Ulisses precisou para a sua Odisseia.
Artigo de opinião escrito no âmbito do lançamento da nova rubrica da nauta.




