Em novembro de 2022, a OpenAI lançou o ChatGPT. Provavelmente o primeiro chatbot minimamente útil, devido à sua utilização da tecnologia dos Large Language Models (LLM), cedo tornou-se viral. Dois meses depois já tinha 100 milhões de utilizadores.
Hoje, apesar da quebra de popularidade da Inteligência Artificial (IA) e dos ataques do Papa atual, a OpenAI chegou aos mil milhões de utilizadores. Os chatbots, reinventados, são um produto que veio para ficar, quer se goste ou não.
Um Grande Modelo de Linguagem (LLM, do inglês de Large Language Model) é um modelo de inteligência artificial treinado para compreender, gerar e manipular texto de forma fluida e coerente.
Os LLMs são capazes de processar grandes volumes de dados textuais para aprender padrões de linguagem e, assim, realizar traduções, redigir textos, responder a perguntas, entre outras funções.
Os LLMs têm várias aplicações, em áreas como o atendimento ao cliente, a criação de conteúdo, a educação e a pesquisa de informação.
Mas nem todos os produtos são lucrativos, e os chatbots ainda não o são. A OpenAI (e todas as outras startups de IA) perdem dinheiro todos os dias. Isso não é segredo nenhum, como temos escrito regularmente na nauta. O segredo é quanto dinheiro perdem…

Imagem gerada via ChatGPT, de forma gratuita.
A Inteligência Artificial é cara. Cada vez que perguntas ao ChatGPT qual é a capital da Namíbia, ou pedes ajuda para escrever uma mensagem de aniversário para a tua tia, estás a aproveitar uma tecnologia que, para funcionar, precisa de não só de imensa energia e poder computacional, como do talento dos crânios mais bem pagos do mundo. E quem irá pagar esses altíssimos custos operacionais?
Tu? Pois, não me parece. Embora existam cada vez mais utilizadores pagos, a OpenAI não consegue depender apenas das receitas das versões premium da sua ferramenta para sobreviver. Mas, se não fores tu a pagar, alguém terá de fazê-lo. Não desesperes, os advertisers vêm para salvar o planeta (típico!).
Anúncios, a resposta do costume!
Os anúncios estão cada vez mais presentes na nossa vida. Não dá para veres um vídeo de YouTube ou um episódio da tua série preferida sem teres que revirar os olhos durante 30 segundos enquanto a publicidade do último filme Avatar não acaba. Um mal menor, pelo prazer de não pagar (ou pagar menos) pelo conteúdo que consomes.
Anúncios nas ferramentas de IA são, portanto, o próximo passo lógico. Business as usual, certo? Não.
Embora este anúncio possa parecer algo normal no modelo de negócio da next big thing, é um verdadeiro perigo à espreita. Plataformas como o Facebook, Instagram e Google já usam os teus dados - muitas vezes com o teu consentimento - para te entregar anúncios para os quais terás mais interesse. Esta é uma tendência comum desde há muitos anos, e, apesar de ter perigos reais, é eficaz e pode ser relativamente controlada.
Agora imagina que a ferramenta de IA que sabe os teus maiores medos, ansiedades, desejos e segredos médicos, usa estes dados para manipular os teus comportamentos de consumo?
A OpenAI afirma que não irá fazê-lo, e que irá incorporar os seus anúncios de forma não predatória. O mais provável é que o faça, pelo menos por agora. No entanto, no futuro, as coisas podem mudar - já existe talento a sair da OpenAI por estar contra a introdução de anúncios em IA. A ética é boa, mas a competição pelo topo eventualmente leva ao abandono dos compromissos.
Isto não é, de todo, um ataque a modelos de negócio que envolvam anúncios como forma de disponibilizar conteúdo gratuito. Um dos fundadores da nauta é um marketeer, cuja expressão mais odiada no mundo é “golpe de marketing”. No entanto, todos na nauta sabemos que confiar nas promessas das grandes empresas tecnológicas é como confiar que um escorpião não te vai morder, mesmo enquanto o ajudas a atravessar um rio.
Tal como já exploramos na nauta, a e-mer-dificação (enshitification) é o destino de todas as novas tecnologias. A IA pode ir por este caminho ainda mais rápido que as redes sociais.
As más finanças da OpenAI
Se lês a nauta semanalmente sabes que as grandes startups de IA estão numa corrida aos mercados financeiros. A entrada na bolsa é sinónimo de uma grande injeção de capital na empresa, por exemplo a SpaceX fez 75 mil milhões de dólares ao entrar no NASDAQ.
Atrás da SpaceX estão a Anthropic e a OpenAI. O dinheiro dos investidores não é infinito e por isso entrar nas bolsas o mais depressa possível é quase uma necessidade fisiológica para ambas. Esta correria resulta em alguns erros pelo caminho e a OpenAI acabou de ver, sem querer, as suas finanças “reveladas” em público pela primeira vez. Ou seja, o segredo mais profundo das startups de IA, quanto dinheiro perdem, foi finalmente revelado!
Vamos aos números
Em 2024 as receitas da OpenAI foram de 3,7 mil milhões de dólares e em 2025 foram de 13,07 mil milhões. Parece excitante, até observarmos as perdas: em 2024 a OpenAI teve perdas operacionais de 8,78 mil milhões de dólares e em 2025 as perdas foram de quase 21 mil milhões de dólares. Ouch!
Mas comparar receitas com perdas operacionais, numa empresa em crescimento e cujos produtos estão ainda a ser desenvolvidos e monetizados, é uma análise muito curta. É preciso compreender melhor o contexto.
Na verdade, houve uma redução das perdas em percentagem das receitas. Em 2024, a empresa teve perdas de 237% (comparando com as receitas) e em 2025 de 160%! É uma clara melhoria e, a continuar a tendência, a percentagem poderá ser de quase 100% neste ano e não é implausível que a empresa começa a ser rentável em 2030. É esse o plano.
No entanto, entre os truques contabilísticos da OpenAI, há mais uma verdade matemática que ajuda a ilustrar o contexto: o prejuízo líquido da OpenAI passou de 5 mil milhões em 2024 para 8 mil milhões em 2025. Ou seja, a empresa não está necessariamente a ficar mais eficiente nas suas operações.
Como se explica este resultado?
Com um pitada de realidade.
A OpenAI criou o que parece ser um produto fantástico. O seu ChatGPT é um chatbot funcional, com uma máquina de plágio embutida com praticamente todo o conhecimento que a nossa civilização disponibilizou gratuitamente na internet. No entanto, essa máquina é caríssima, catastroficamente caríssima.
Neste momento, sempre que usas o ChatGPT para transformar uma selfie tua numa pintura renascentista estás a usar um conjunto de recursos caríssimos, completamente financiados pelos investidores privados da OpenAI. Estás tu, e estão a maior parte dos utilizadores da OpenAI… dos mil milhões de utilizadores, apenas 50 milhões pagam o serviço.
Se os outros 900 milhões não pagam, a questão fundamental é: porquê?
Eis algumas respostas possíveis:
o ChatGPT pago não vale a pena o seu custo;
existem alternativas melhores ao ChatGPT;
o ChatGPT grátis é bom o suficiente;
o ChatGPT pago não é bom o suficiente;
Inteligência Artificial é má para a Humanidade e não a quero usar.
A resposta 5 está fora do controlo da OpenAI - a empresa não conseguirá obrigar ninguém a usar os seus produtos. Sobram as outras quatro respostas…
As respostas 1, 2, e 4 são más notícias para a OpenAI. Significam que tem de investir mais em Investigação & Desenvolvimento, numa aposta arriscada de que conseguirá dominar o mercado da IA através desse meio. É isso que a empresa tem feito.
Em 2024, a OpenAI investiu quase 8 mil milhões de dólares em Investigação & Desenvolvimento. Em 2025 investiu 19 mil milhões.
Mas esse investimento recorrente não se traduz necessariamente em ganhos na prática. A empresa, na altura uma entidade não-lucrativa por definição, era a pioneira dos LLM em 2022, lançando o produto que iniciou a revolução da IA. Hoje, a Anthropic já ultrapassou a fatia de mercado da OpenAI junto dos negócios. Ou seja, para além de ter os modelos mais avançados, a Anthropic já está a dominar o mercado real.
Se a Anthropic, fundada por ex-trabalhadores da OpenAI importantíssimos na criação dos LLM, já ultrapassou os produtos da OpenAI, então a questão que os investidores têm de avaliar é se os investimentos em Investigação & Desenvolvimento que a OpenAI faz poderão trazer os resultados que são precisos para que a empresa alguma vez seja lucrativa… porque a continuar assim, a OpenAI poderá continuar a ser uma entidade não-lucrativa, mesmo que sem querer.
Sobra, então, a resposta 3: o ChatGPT grátis é bom o suficiente. Essa é, neste momento, a resposta mais otimista do ponto de vista da OpenAI. Significa que os utilizadores que já conquistou deverão continuar a utilizar o seu produto gratuito, a não ser que alguém apresente um produto muito melhor de forma gratuita (o que pode facilmente acontecer).
Se essa é a resposta, então a OpenAI vai continuar a expandir as publicidades nos seus produtos. É a sua única opção, de momento. Ao mesmo tempo, a empresa continuará a aumentar investimentos em Investigação & Desenvolvimento, na esperança de que consiga encontrar uma vantagem em relação à sua competição.
Resumindo: a OpenAI está a perder cada vez mais dinheiro, porque gasta muito em Investigação & Desenvolvimento para competir com a Anthropic, enquanto poucos utilizadores pagam pelo ChatGPT. Se os utilizadores continuarem a preferir a versão gratuita, a empresa pode acabar por depender cada vez mais de anúncios, o que acelera a degradação da experiência (e-merd-ificação). Mas a grande questão é precisamente essa: será que os anúncios bastam para tornar a Inteligência Artificial lucrativa?
Puramente para exemplificação, este último parágrafo foi rescrito pelo ChatGPT gratuito, a pedido do nosso estagiário que, por ser muito forreta, nunca pagaria por algo do género.




