Paul Graham, fundador da Y Combinator (YC), escreveu uma vez sobre Sam Altman, CEO da OpenAI: “Podiam atirá-lo de paraquedas para uma ilha cheia de canibais e voltar em 5 anos e ele seria o rei.” 

Ora bem, Sam Altman está há 40 anos na Terra, quantos anos faltarão até ser o nosso rei?

O que se segue é um passo a passo para conquistar o mundo, baseado no percurso do CEO mais poderoso de Silicon Valley:

Passo 1 - Fundar uma Startup

Em 2005 abandonou a universidade para fundar, com 19 anos, a Loopt, uma rede social de geolocalização. Conseguiu 30 milhões de financiamento e a ajuda da YC. Mesmo assim falhou. A Loopt não conseguiu a tração esperada e acabou sendo adquirida em 2012 por 43 milhões de dólares. Nada mau, para uma falsa partida.

Passo 2 - Investir em 4000 Startups

Como um dos primeiros participantes da aceleradora YC, conseguiu acesso a um dos mais poderosos berços de startups. Foi então uma questão de tempo até Paul Graham tornar Sam Altman presidente da YC, o que aconteceu em 2014

Presidente da YC até 2019, uma das primeiras medidas de Altman foi aumentar o dinheiro investido em cada startup, algo que dura até hoje. Sob seu comando, a aceleradora cresceu e cresceu, tendo hoje um portfólio de mais de 4000 startups avaliadas em mais de 600 mil milhões de dólares.

Passo 3 - Supremacia Tecnológica

A liderar a vanguarda do mundo das startups, Altman tinha uma visão de 360º sobre os mais importantes avanços tecnológicos. E foi dessa posição avantajada que detetou a próxima revolução de Silicon Valley: a inteligência artificial.

Assim, em 2015, juntou-se ao grupo fundador da OpenAI. Com nomes sonantes como Elon Musk e Peter Thiel, a OpenAI lançou-se ao mundo como uma organização sem fins lucrativos.

Embora com muito hype à partida, os 3 primeiros anos não foram muito felizes e em 2018 deu-se uma cisão - Elon Musk via a OpenAI a ficar para trás em relação à competição e sugeriu o seu próprio nome para CEO. Foi rejeitado e abandonou a organização, levando consigo os seus milhões. 

Sem um dos mais generosos doadores e pressionados pela competição, a OpenAI cedeu ao lado negro da força - em 2019 criou uma sucursal com fins lucrativos cujo o retorno fica “limitado” a 100 vezes o investimento. A Microsoft investiu mil milhões. O resto é história. Em 2022 é lançado o ChatGPT, a app com o maior crescimento de sempre. Recentemente, Elon Musk processou Sam Altman por ter corrompido a missão humanitária da OpenAI.

Passo 4 - Integração Vertical

A IA parece magia, mas a magia é só uma ilusão alcançada pela computação,  requerendo processadores. Daí, após alcançar a “supremacia tecnológica”, Altman está à procura de financiamento infinito para revolucionar a indústria dos chips. Como explicamos numa edição anterior da nauta, Altman pretende integrar verticalmente a indústria da IA, controlando assim toda a cadeia de produção. A OpenAI e a Microsoft estão a ser investigadas pela possibilidade de estarem a quebrar o direito à concorrência.

Passo 5 - Utopia?

Imaginando um futuro monopólio de uma IA super-avançada criada por Altman, o que nos restará?

É aí que entra um dos passatempos de Altman: a Worldcoin, um projeto em blockchain com o objetivo de “distribuir livre e uniformemente unidades de um novo token digital a todos os seres humanos do planeta.” Tal como os outros projetos de Altman, soa bom demais para ser verdade.

Em Portugal, a Worldcoin levou diariamente 4000 pessoas a fazer scan da íris em troca de criptomoedas. Cerca de 3% da nossa população já o tinha feito em 2024. Escreve a DECO: “A forma como abordam o público-alvo, jovens muitas vezes menores de idade, é muito pouco recomendável. Aliciam-nos com a “oferta” dos tokens e depois fazem a leitura da íris no próprio momento sem que haja tempo para qualquer tipo de ponderação.” 

Mesmo com boas intenções (que no caso de Altman são duvidosas), a diferença entre utópico e distópico costuma perder-se na execução.

Artigo, adaptado, originalmente escrito na edição semanal da nauta do dia 2 de março de 2024.

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