16 de maio de 2026

Olá, coisinha sexy!
Esta semana escrevemos sobre a viagem de estudo de Trump à China, sobre como o dólar se tornou na moeda de referência à escala mundial, e sobre a promulgação do pacote da habitação.
Vamos lá!

PSI -0,25%

STOXX600 -0,83%

S&P500 0,31%

NASDAQ 0,34%

EUR/USD -1,29%

OURO -3,06%

CRUDE 5,44%

BITCOIN -4,47%

NVDA 5,16%

TSLA -0,073%

AAPL 2,77%

SON 1,80%

Dados obtidos às 12:38 do dia 16 de maio de 2026. Definições no final da nauta.

MERCADOS FINANCEIROS

Praça do Comércio

O CEO da NVIDIA, numa “missão impossível” para embarcar no Air Force One a caminho da China. Talvez seja IA…

A notícia mais importante da semana: China e Estados Unidos da América têm um date!?

Armadilha de Tucídides. Parece o nome de uma jogada qualquer de xadrez, daquelas que só alguém muito pretensioso se lembraria de mencionar durante uma partida (tipo o Carlitos Magno da Lourinhã, que só não foi profissional porque se lesionou no joelho)...

No entanto, é um termo que define uma das ideias mais importantes do nosso tempo: uma potência em ascensão e uma superpotência estabelecida têm tendência a entrar em conflito.

Nos nossos dias, o termo aplica-se à China (em ascensão) e aos Estados Unidos da América (EUA), com a independência de Taiwan a ser o ponto chave da rivalidade entre as duas potências.

Ora, a recente visita de Trump a Pequim tinha como objetivo encontrar pontos em comum entre os EUA e a China. Comércio global, Inteligência Artificial (IA), a crise energética e o conflito no Irão foram alguns dos tópicos debatidos. Mas não houve fumo branco e Taiwan, a ilha que é o paraíso dos semicondutores, continua a ser a linha vermelha que separa as duas nações. 

Mas para além de uma visita agradável a Pequim, Trump levou com ele empresários como Elon Musk (da Tesla) e Jensen Huang (da NVIDIA), ambos expostos à competição chinesa. Aliás, Jensen Huang inicialmente nem estava previsto ir, pelo que a IA deverá ter-se tornado um dos tópicos principais à última hora.

De facto, é a NVIDIA de Jensen Huang que mais é afetada pela rivalidade entre as duas potências, uma vez que as exportações dos seus chips para a China não são permitidas pelos EUA. Embora Xi Jinping tenha prometido “portas abertas” às empresas americanas, as águas continuam turvas. Os EUA permitiram à NVIDIA vender o seu 2.º chip mais avançado a 10 empresas chinesas, mas o futuro da NVIDIA na China continua incerto.

Esta “Guerra Fria” da IA é preocupante. Como escrevemos no início de 2026, as restrições à NVIDIA (e outras produtoras de chips) provocaram a indústria chinesa… A fábrica do mundo vê-se obrigada a inovar na indústria dos semicondutores e é uma questão de tempo até ter sucesso. Recentemente, vários laboratórios de IA chineses esconderam os seus novos desenvolvimentos em resposta ao Claude Mythos da Anthropic, o modelo de IA apocalíptico sobre o qual já escrevemos.

No que toca ao conflito no Irão, esta visita também não trouxe novidades. Os EUA afirmam que a China tem interesse em comprar petróleo norte-americano and that is that.

Para além da mão cheia de nada e dos memes, houve otimismo à volta da Armadilha de Tucídides. Os mercados reagiram positivamente ao date, com a NVIDIA a subir 5,16% ao longo da semana.

A segunda notícia mais importante da semana: nomeado por Donald Trump, Kevin Warsh foi confirmado como o novo líder da Reserva Federal, sucedendo a Jerome Powell que terminou o seu mandato esta sexta-feira.

No nosso retângulo: a Sonae continua a apostar no pet care e comprou a retalhista norueguesa Petco Retail AS através da finlandesa Musti, consolidando uma estratégia internacional cada vez mais focada nos animais de estimação. A marca portuguesa ZU do grupo Sonae já é avaliada em cerca de 135 milhões de euros.

ECONOMIA MUNDIAL

A Calí-gula do dólar: parte um

Uma análise em duas partes sobre o dólar americano. Nesta semana, investigamos como este se tornou a moeda de referência mundial.

Todos os dias, milhões de transações comerciais internacionais são finalizadas; destas, grande parte (mais de 50%) são feitas em dólar. O dólar é o mais parecido a uma moeda mundial que temos atualmente, ainda que este domínio já tenha sido muito maior - e pode até estar ameaçado. Para perceber as razões e a história por detrás do dólar, instruímos um dos nossos estagiários (que não é pago em dólares, e na verdade, nem é pago de todo!) a investigar. 

Um campeonato conquistado ainda durante a Guerra

A ascensão do dólar ao domínio global não aconteceu por acaso, foi antes decidida numa mesa de conferências em 1944. Com a Segunda Guerra Mundial ainda em pleno andamento, representantes de 44 nações aliadas reuniram-se em Bretton Woods, New Hampshire, para redesenhar o sistema financeiro global para o mundo do pós-guerra. O objetivo era evitar o colapso financeiro que se verificou após a primeira guerra mundial, e que ajudou a criar as condições para a ascensão de figuras como Adolf Hitler. A lógica era a seguinte: a Europa estava em ruínas e os EUA eram a única grande economia que restava de pé. Os americanos detinham a maior parte do ouro mundial e possuíam o poderio industrial e militar para sustentar os esforços de reconstrução da Europa. Assim, ficou definido que o dólar seria indexado ao ouro e, que todas as outras moedas seriam indexadas ao dólar, tornando os EUA na âncora financeira do mundo. 

E tudo o petróleo potenciou

O sistema de Bretton Woods acabou por entrar em colapso em 1971, quando o Presidente Nixon pôs fim à ligação direta entre o dólar e o ouro. Muitos previram que o domínio do dólar acabaria. E isso não aconteceu, em parte, devido ao vício mundial por uma pequena coisa chamada: petróleo. No início da década de 1970, os EUA chegaram a um acordo com a Arábia Saudita: todas as vendas de petróleo seriam cotadas em dólares, e os EUA forneceriam proteção militar. Como o resto da OPEP seguiu o exemplo, nasceu um novo sistema, o do petrodólar. O petróleo é a força vital da economia global e, como é cotado em dólares, todos os países que precisam de petróleo têm de adquirir dólares primeiro. Isto cria uma procura global permanente e inerente pela moeda norte-americana. Além do petrodólar, a dimensão da economia e dos mercados financeiros dos EUA também foram fatores decisivos na manutenção do dólar como referência mundial.

E ajuda ter muitos porta-aviões…

Existem outros fatores que explicam o domínio do dólar. Um deles é a estabilidade das instituições americanas. Os EUA têm, pelo menos historicamente, instituições fiáveis. O poderio militar americano é outro fator muito importante. Os militares yankees estão espalhados um pouco por todo o planeta, o que não só permite que dólar circule em todo o lado, como assegura que este está protegido pelos porta-aviões nucleares do exército mais poderoso da história. Finalmente, não podemos descurar o efeito de rede: o dólar é dominante, em parte, porque é dominante. Como bancos, empresas e governos de todo o mundo já usam dólares para comércio internacional e contratos, faz sentido que novos participantes também usem dólares. É um ciclo vicioso.

O dólar não se tornou a moeda mundial por acaso. Foi um domínio com altos e baixos, construído e negociado ao longo de várias décadas. Não obstante, all good things come to an end. Poderá o domínio do dólar estar ameaçado? Fica atento à parte 2, na próxima semana.

A ACONTECER

🏠💪 O pacotão está aprovadão - O Presidente da República promulgou o novo pacote fiscal da habitação. Entram assim em vigor medidas como o IVA reduzido para 6% na construção, a descida do IRS sobre rendas moderadas de 25% para 10% e benefícios para reinvestimento em imóveis. Já o Banco de Portugal quer dificultar o acesso ao crédito bancário, reduzindo a taxa de esforço máxima de 50% para 40% do rendimento do agregado familiar, citando a prevenção de riscos futuros no incumprimento dos créditos. Entretanto, um estudo da consultora CBRE revelou que um terço das casas em Portugal não é usado como residência principal. 

🤡📉 PPRidículo - Um estudo do ECO concluiu que apenas 13% dos PPR em Portugal conseguiram bater a inflação nos últimos cinco anos, sobretudo devido a baixas rendibilidades e comissões elevadas. Os PPR mais conservadores e com capital garantido foram os que mais destruíram poder de compra. Em muitos casos, os gestores ganharam mais do que os investidores. O benefício fiscal anunciado de 20% no IRS revelou-se também bastante inferior na prática, com uma taxa média efetiva abaixo de 4%. Ainda assim, existem algumas exceções com bons resultados, sobretudo em PPR com maior exposição a ações e custos mais baixos.

Rapidinhas

Os lucros dos cinco principais bancos em Portugal cresceram 4,9% até março, para 1.279 milhões de euros.

A ministra do Ambiente garante que Portugal tem reservas de combustíveis garantidas até agosto.

O crédito às famílias portuguesas atingiu níveis recorde em março, ultrapassando os 4 mil milhões de euros num único mês. 

A Caixa Geral de Depósitos emitiu 500 milhões em obrigações verdes a 6 anos, com juros a rondar os 4%.

Os terrenos sem proprietário identificado passarão a ser registados provisoriamente a favor do Estado. Os proprietários terão 15 anos para contestar.

O mercado das apostas online em Portugal continua a crescer a um ritmo acelerado. Em 2025, cada adulto português perdeu em média 133 euros neste tipo de plataformas.

CR7 comprou uma participação na LiveModeTV. Esta plataforma já garantiu a transmissão gratuita de todos os jogos da Seleção no Mundial, através do YouTube. 

O Governo prevê lançar 211 concursos entre maio deste ano e abril de 2027 no âmbito dos programas PT 2030 e FAMI. A verba associada é de 3,1 mil milhões de euros.

O salário médio dos trabalhadores em Portugal subiu 5% e atingiu os 1.611 euros no primeiro trimestre deste ano. Em termos reais, a subida foi de apenas 2,7%.

Portugal voltou a pagar o custo mais alto em 12 anos para se financiar a 10 anos. Este é um sinal de que os mercados estão mais exigentes, com a pressão sobre a dívida pública a aumentar.

O IGCP captou esta semana 1.426 milhões de euros através de leilões de dívida a 4 e 10 anos. As taxas aumentaram face às operações anteriores, atingindo novos máximos. 

NAUTA DA SEMANA
Manie

A Manie é uma conhecida na nauta, duas vezes nauta da semana (em 2024 e 2025), já apareceu no Cantinho do Empreendedorismo, e agora está novamente de regresso a nauta da semana, completando o tricampeonato! 

Porquê? Porque comprou a Payper, outra plataforma portuguesa focada na comparação de serviços como eletricidade, gás, telecomunicações e água. A ideia é simples: juntar forças para ganhar escala, negociar melhores preços e transformar o telemóvel num “personal trainer” das tuas contas mensais. 

Ligação direta ao bolso 

Criada por André Pedro e Francisco Val Ferreira, a Manie tornou-se conhecida pelo Auto Switch, uma funcionalidade que troca automaticamente o contrato de energia dos utilizadores sempre que aparece uma oferta mais barata no mercado. Já a Payper traz experiência na comparação de vários serviços e uma base sólida de utilizadores. Juntas, as plataformas deverão ultrapassar os 150 mil utilizadores e aproximar-se da meta dos 200 mil. A lógica é quase de compra em grupo, mas para energia: quanto maior a comunidade, maior o poder de negociação com as comercializadoras. Segundo a empresa, alguns utilizadores conseguem reduzir a fatura em cerca de 30% e há mais de 32 mil pessoas com mudanças automáticas de contrato ativas.

Próxima ligação: Espanha e talvez os EUA 

Depois de consolidar a integração da Payper, a Manie quer acelerar fora de Portugal. Espanha já está no radar e os fundadores admitem estar a analisar empresas espanholas para futuras aquisições. Mas o plano vai mais longe: os Estados Unidos também entram na rota, aproveitando a liberalização do mercado energético em alguns estados. Pelo meio, a startup prepara ainda uma nova ronda de investimento superior a 5 milhões de euros e quer criar um assistente financeiro com inteligência artificial para ajudar a gerir contratos, subscrições e despesas.

CANTINHO DO EMPREENDEDORISMO

📖A Dyscovery, a usar IA para combater a dislexia - A startup Dyscovery, que está incubada no Innovation Hub da JUNITEC do Instituto Superior Técnico, está a desenvolver uma plataforma baseada em IA para ajudar alunos com dislexia. Esta plataforma adapta exercícios e métodos de leitura às necessidades de cada estudante, promovendo uma aprendizagem mais inclusiva e personalizada. A solução já está a ser testada em cinco escolas portuguesas, envolvendo mais de 100 alunos. O projeto foi distinguido com vários prémios de inovação e empreendedorismo, entre os quais o People’s Choice Award no MIT  $100K Entrepreneurship Competition e o primeiro lugar na categoria de Inovação Social do concurso ARRISCA C, promovido pela Universidade de Coimbra.

⚔️ A Timestamp, a fazer parcerias internacionais na defesa - A portuguesa Timestamp (nauta da semana aqui) reforçou a sua presença internacional no setor da defesa ao fechar parcerias estratégicas com as empresas turcas iMarine e Koç Defense. A iMarine é especializada em sistemas de controlo e monitorização marítima, enquanto a Koç Defense desenvolve tecnologias de sonar, acústica submarina e soluções de defesa e segurança. O objetivo passa por integrar soluções de IA e fusão de dados desenvolvidas em Portugal nestas plataformas militares, acelerando capacidades tecnológicas críticas para operações da NATO e da União Europeia. 

RECOMENDAÇÃO

Como organizar impostos num orçamento instável

Se trabalhas a recibos verdes, por comissões ou tens rendimentos que andam sempre numa montanha-russa, o pagamento do IMI pode aparecer de surpresa, quase como descobrir que te falta aquele cromo impossível do Mundial quando a coleção já parecia quase completa. Este artigo do Doutor Finanças explica como encaixar impostos fixos num orçamento instável sem entrar em modo sobrevivência financeira. Desde a regra dos 12 meses até à criação de uma conta só para impostos, vais perceber como pequenas rotinas podem evitar grandes dores de cabeça quando chegam o IMI, o IUC ou o IRS. Porque ninguém quer abrir a app do banco e sentir que levou um tackle financeiro logo no início do mês.

ABC DO DINHEIRO
Obrigações verdes

As obrigações verdes, em inglês green bonds, são títulos de dívida emitidos por empresas, governos ou instituições financeiras para financiar projetos com impacto ambiental positivo, como energias renováveis, eficiência energética ou transportes sustentáveis. Tal como nas obrigações tradicionais, os investidores emprestam dinheiro ao emitente em troca do pagamento de juros ao longo do prazo da obrigação. No vencimento, o capital investido é devolvido aos investidores.

No adeus desta edição relembramos que fazer insider trading é ilegal… muito ilegal! Mas… se fores Presidente dos EUA, até dá para dar uns toques! No entanto, como tu não o és, não arrisques, e joga limpinho limpinho - sabemos que Trump não lê a nauta, pois ser uma coisinha sexy é um requisito para subscrever.

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Memes

As cotações apresentam os resultados semanais dos ativos referenciados. As quatro primeiras são índices que combinam os desempenhos de conjuntos de empresas. O PSI é o índice português, o STOXX600 é o índice das 600 maiores empresas europeias, o S&P500 e o NASDAQ são ambos dos EUA. As seguintes quatro são mercadorias e moedas. EUR/USD é o câmbio entre o euro e o dólar americano, ouro e crude dizem respeito aos contratos contínuos de ambos, e bitcoin é a mais popular criptomoeda (em euros).

As quatro últimas são ações de empresas que tiveram desempenhos notáveis durante a semana. Nesta semana temos NVDA para a NVIDIA, TSLA para a Tesla, AAPL para a Apple e SON para a Sonae.

A nauta é uma newsletter semanal sobre a atualidade económica, financeira e empresarial, escrita em língua portuguesa. Não é jornalismo nem consultoria financeira, mas uma oportunidade para aprofundares os teus conhecimentos nestes temas e acompanhares o essencial do mundo dos negócios e mercados financeiros.

Escrita por João Ornelas Raínho, Mário de Pinto Balsemão e Nuno Martins,
com a colaboração de Cristina Berenguer.