
O caso da compra da Rolls‑Royce é um dos episódios mais curiosos da história recente da indústria automóvel de luxo, envolvendo uma verdadeira batalha estratégica entre a Volkswagen e a BMW no final da década de 1990.
Tudo começou em 1998 quando a Vickers plc, então proprietária das operações da Rolls‑Royce e da Bentley, decidiu vender o negócio, atraindo o interesse de vários grupos, entre eles as duas construtoras alemãs.
A BMW já era fornecedora de motores para a Rolls‑Royce e parecia favorita, apresentando inicialmente uma oferta de cerca de 340 milhões de libras pela divisão automóvel.
A Volkswagen, porém, entrou na disputa com uma proposta financeiramente superior, de aproximadamente 430 milhões de libras, o que garantiu o acordo com a Vickers, adquirindo a fábrica de Crewe (Bentley Motors, Inglaterra), as linhas de produção, os projetos dos modelos e a famosa estatueta Spirit of Ecstasy.
O aparente triunfo da Volkswagen revelou, contudo, uma fragilidade jurídica decisiva: a Vickers era proprietária apenas da marca Bentley e dos ativos industriais, enquanto o nome “Rolls‑Royce” e o logótipo “RR” pertenciam separadamente à Rolls‑Royce plc, a divisão de motores aeronáuticos.

Logótipo.
Aproveitando essa particularidade, e também a sua relação com a empresa de aviação, a BMW negociou diretamente os direitos sobre o nome e o logótipo Rolls‑Royce por cerca de 40 milhões de libras, valor muito inferior ao montante pago pela Volkswagen pelos ativos físicos. A BMW também ameaçou cortar o fornecimento de motores dentro de um ano (o que fazia parte do acordo inicial), uma medida que assustou clientes e reduziu as encomendas em 30%.
Criou‑se então um impasse inusitado: a Volkswagen detinha a fábrica, os modelos e a estatueta icónica, mas não podia usar legalmente o nome Rolls‑Royce nos automóveis; já a BMW possuía a marca e o logótipo, mas não tinha as instalações nem a produção.
Após disputas e negociações intensas, as duas empresas chegaram a um acordo: a Volkswagen poderia produzir automóveis Rolls‑Royce em Crewe durante um período de transição entre 1998 e 2002, mantendo também a marca Bentley, enquanto a BMW forneceria motores nesse intervalo.
Concluído o período de transição, a 1 de janeiro de 2003 a BMW assumiu em exclusivo a produção de automóveis Rolls‑Royce numa nova fábrica em Goodwood, Rolls-Royce Motor Cars Limited no Reino Unido. Passou a controlar integralmente a marca de luxo britânica, enquanto a Volkswagen consolidou a Bentley como sua marca de luxo tradicional e desportiva.
O episódio tornou‑se um caso clássico de estudo de estratégia empresarial e de gestão de propriedade intelectual, mostrando como o controlo de uma marca pode ser mais valioso do que fábricas e equipamentos, mesmo em setores fortemente industriais.






