Em Portugal, o Natal e o fim de ano chegam muitas vezes com um bilhete de lotaria na mão ou uma raspadinha. É um hábito já enraizado na cultura portuguesa e que muitos encaram como uma tradição: oferecer raspadinhas aos familiares, participar no sorteio da Lotaria de Natal e de Fim de Ano, ou alimentar a esperança de mudar de vida com um golpe de sorte.

Para muitas famílias, não é só jogo: comprar a lotaria ou jogar no Euromilhões é quase um ritual do quotidiano. Mais do que simples entretenimento, os jogos sociais representam um símbolo de esperança num futuro melhor. No entanto, quando o jogo se transforma em rotina, é fácil perder o controlo. Aqui, entra a importância da literacia financeira.

O peso dos jogos sociais na economia portuguesa

Os jogos sociais da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, como a Lotaria Clássica, o Euromilhões ou as raspadinhas, são mais publicitados em época natalícia, o que resulta numa maior procura.

Em 2024, quando apresentou o Orçamento de Estado para 2025, o Governo previa que a receita fiscal dos jogos sociais explorados pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa aumentou para cerca de 232 milhões de euros, um aumento significativo face aos anos anteriores.

Estes valores refletem não só o sucesso comercial destes produtos, mas também o seu impacto na economia nacional, especialmente no financiamento da Segurança Social. Parte das receitas dos jogos é canalizada para apoiar programas sociais, instituições de solidariedade e projetos de saúde pública, o que torna o setor uma fonte sólida de recursos públicos.

Contudo, este crescimento levanta questões importantes: até que ponto este aumento revela uma maior dependência dos portugueses em relação ao jogo? E será que esta aposta crescente na sorte não expõe fragilidades na compreensão dos princípios básicos da gestão financeira pessoal?

Uma tradição que deve manter-se com equilíbrio

Este volume de receita mostra como, mesmo em períodos de maior pressão financeira, os portugueses mantêm (ou até reforçam) o hábito de apostar na sorte, especialmente em datas festivas.

O jogo em si não é o problema — mas sim a falta de autocontrolo e planeamento. No contexto das festas, é natural fazer pequenas apostas simbólicas, especialmente quando há um componente social envolvido. O perigo surge quando o jogo ultrapassa o “bilhete de Natal” e se transforma em um gasto constante, difícil de justificar no orçamento familiar.

O jogo em si não é o problema — mas sim a falta de autocontrolo e planeamento.

Ao mesmo tempo, cresce o debate sobre a (falta) de literacia financeira dos portugueses, e sobre a necessidade de jogar de forma responsável: na correria das festas, é fácil ultrapassar o “bilhete simbólico” e transformar um gesto tradicional em despesa excessiva.

A educação financeira é uma ferramenta que ajuda a manter esse equilíbrio. Com conhecimento e planeamento, é possível desfrutar das tradições portuguesas sem comprometer as finanças pessoais.

A palavra de ordem para este Natal e passagem de ano deve ser de equilíbrio: manter o encanto do ritual, mas definir um limite claro para o que se gasta em raspadinhas e lotarias.

O papel da literacia financeira na prevenção do jogo excessivo

Em Portugal, multiplicam-se iniciativas de sensibilização promovidas por escolas, universidades e entidades financeiras. Programas como o Plano Nacional de Formação Financeira (“Todos Contam”) visam dotar os cidadãos de ferramentas para uma gestão consciente do dinheiro. Estas ações tornam-se especialmente importantes em períodos festivos, quando o apelo ao consumo e ao jogo se intensifica.

Com conhecimento e planeamento, é possível desfrutar das tradições portuguesas sem comprometer as finanças pessoais.