Todos os dias, milhões de transações comerciais internacionais são finalizadas; destas, grande parte (mais de 50%) são feitas em dólares ($). O dólar é o mais parecido a uma moeda mundial que temos atualmente, ainda que este domínio já tenha sido muito maior… e pode até estar ameaçado.

Para perceber as razões e a história por detrás do dólar, instruímos um dos nossos estagiários (que não é pago em dólares, e na verdade, nem é pago de todo!) a investigar. 

A Ascen$ão do Dólar Americano

Um campeonato conquistado ainda durante a Guerra

A ascensão do dólar ao domínio global não aconteceu por acaso, foi antes decidida numa mesa de conferências em 1944. Com a 2.ª Guerra Mundial ainda em pleno andamento, representantes de 44 nações aliadas reuniram-se em Bretton Woods, New Hampshire, para redesenhar o sistema financeiro global para o mundo do pós-guerra.

O objetivo era evitar o colapso financeiro que se verificou após a 1.ª Guerra Mundial, e que ajudou a criar as condições para a ascensão de figuras como Adolf Hitler. A lógica era a seguinte: a Europa estava em ruínas e os Estados Unidos da América (EUA) eram a única grande economia que restava de pé. Os norte-americanos detinham a maior parte do ouro mundial e possuíam o poderio industrial e militar para sustentar os esforços de reconstrução da Europa.

Assim, ficou definido que o dólar seria indexado ao ouro e, que todas as outras moedas seriam indexadas ao dólar, tornando os EUA na âncora financeira do mundo.

Assim, ficou definido que o dólar seria indexado ao ouro e, que todas as outras moedas seriam indexadas ao dólar, tornando os EUA na âncora financeira do mundo.

E tudo o petróleo potenciou

O sistema de Bretton Woods acabou por entrar em colapso em 1971, quando o Presidente Nixon pôs fim à ligação direta entre o dólar e o ouro. Muitos previram que o domínio do dólar acabaria. E isso não aconteceu, em parte, devido ao vício mundial por uma pequena coisa chamada: petróleo.

No início da década de 1970, os EUA chegaram a um acordo com a Arábia Saudita: todas as vendas de petróleo seriam cotadas em dólares, e os EUA forneceriam proteção militar. Como o resto da OPEP seguiu o exemplo, nasceu um novo sistema, o do petrodólar.

O petróleo é a força vital da economia global e, como é cotado em dólares, todos os países que precisam de petróleo têm de adquirir dólares primeiro. Isto cria uma procura global permanente e inerente pela moeda norte-americana. Além do petrodólar, a dimensão da economia e dos mercados financeiros dos EUA também foram fatores decisivos na manutenção do dólar como referência mundial.

E ajuda ter muitos porta-aviões…

Existem outros fatores que explicam o domínio do dólar.

Um deles é a estabilidade das instituições americanas. Os EUA têm, pelo menos historicamente, instituições fiáveis. O poderio militar americano é outro fator muito importante. Os militares yankees estão espalhados um pouco por todo o planeta, o que não só permite que dólar circule em todo o lado, como assegura que este está protegido pelos porta-aviões nucleares do exército mais poderoso da história.

Finalmente, não podemos descurar o efeito de rede: o dólar é dominante, em parte, porque é dominante. Como bancos, empresas e governos de todo o mundo já usam dólares para comércio internacional e contratos, faz sentido que novos participantes também usem dólares. É um ciclo vicioso.

O dólar não se tornou a moeda mundial por acaso. Foi um domínio com altos e baixos, construído e negociado ao longo de várias décadas. Não obstante, all good things come to an end

Poderá o domínio do dólar estar ameaçado?

Nada é eterno, eterno, eterno… exceto os diamantes, e talvez Sean Connery como James Bond. O dólar, eventualmente, poderá deixar de ser a moeda de referência mundial.

Cada vez mais se ouvem vozes que enfatizam a queda do dólar. Será o fim de uma era? E se o dólar irá cair, prende-se questões sobre o quando, e o porquê.

O fator China

A China é a segunda maior economia do mundo e a maior potência comercial, mas o yuan representa apenas cerca de 7% das transações cambiais globais.

A China tem trabalhado afincadamente para alterar esta situação, ao assinar acordos comerciais bilaterais que contornam o dólar, a promover contratos de petróleo denominados em yuan e a construir o seu próprio sistema de pagamentos transfronteiriços como alternativa à rede SWIFT, dominada pelos EUA. A Arábia Saudita está a considerar aceitar yuan em algumas transações com a China.

O maior obstáculo do yuan é político. Os investidores só confiam nas moedas de reserva quando o país emissor tem mercados de capitais abertos, tribunais independentes e instituições transparentes. A China controla rigidamente a sua moeda e os seus mercados de capitais permanecem, em parte, fechados ao mundo exterior. Até que isso mude, o yuan será apenas um interveniente regional.

Os imprevisíveis BRICS

Os BRICS (bloco geopolítico formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) têm-se manifestado veementemente a favor da redução da sua dependência do dólar. Depois de os EUA terem congelado as reservas em dólares da Rússia na sequência da invasão da Ucrânia em 2022, estes países tiveram a confirmação de que deter dólares significa estar exposto às decisões políticas americanas.

Estar exposto, no contexto financeiro e económico, refere-se ao grau de vulnerabilidade ou ligação de uma pessoa, instituição ou ativo financeiro a determinados riscos, mercados ou ativos. Pode indicar, por exemplo, a percentagem de capital investida numa ação, setor ou moeda específica. Quanto maior a tua exposição, maior pode ser o teu potencial de ganhos, mas também o teu risco de perdas. A gestão da exposição é fundamental para diversificar investimentos e reduzir riscos financeiros.

ABC do Dinheiro

Os BRICS chegaram mesmo a lançar a ideia de uma moeda comum. A ideia não avançou, porque as diferenças económicas entre os países membros são simplesmente demasiado grandes.

Cuidado com as Cripto

Poderá a bitcoin substituir o dólar?

Quase certamente não num cenário a curto/médio prazo. A bitcoin é demasiado volátil, cara, e com pouco volume para ser usada como moeda “normal”. A sua natureza descentralizada e desregulamentada não permitirá reunir consenso entre os governos e bancos centrais do planeta. No entanto, é importante perceber o futuro das moedas digitais. Mais de 130 países já implementaram, ou estão a explorar a criação suas próprias moedas digitais. Por agora, a bitcoin está fora de moda.

A América a dar tiros nos pés

Talvez a maior ameaça ao dólar venha de dentro.

Em maio de 2026, a dívida pública dos EUA ultrapassou os 39 biliões de dólares, e continua a crescer. Os sucessivos governos americanos têm demonstrado disposição para utilizar o dólar como arma geopolítica, congelando ativos, excluindo países do sistema SWIFT, o que deixa algumas nações preocupadas com a sua própria exposição ao dólar, se não estiverem alinhadas com os interesses geopolíticos e económicos dos yankees.

E claro, o elefante na sala, a Administração Trump tem feito um verdadeiro speedrun para descredibilizar o soft power americano no teatro mundial. A destruição da confiança institucional é um fator crítico. Lembra-te: o dólar, em parte, vale o que vale porque as pessoas confiam nas instituições americanas. Quando essa confiança erode, o impacto é lento, mas pode ser cumulativo.

Não saias à rua para anunciar o fim iminente do dólar. Na verdade, o dólar não vai desaparecer, nem o seu domínio mundial está assim tão perto de acabar. Mas lembra-te, nada é eterno, eterno, eterno. O mundo avança constantemente, e se o dólar não for adaptado, será substituído.

Em poucas palavras:

O importante: o dólar tornou-se a moeda dominante do sistema financeiro global graças ao sistema Bretton Woods, ao petrodólar e ao peso económico, militar e institucional dos EUA. Mas a sua hegemonia já não é intocável.

Nas entre linhas:

  • Em 1944, o acordo de Bretton Woods colocou o dólar no centro da ordem monetária mundial;

  • Depois de 1971, mesmo sem ligação ao ouro, o dólar manteve-se no topo porque o petróleo passou a ser negociado em dólares e porque os mercados americanos continuaram a ser os mais robustos e transparentes;

  • A força do dólar também vem do efeito de rede: toda a gente o usa, logo continua a ser útil usá-lo.

As ameaças:

  • China quer aumentar o uso do yuan, mas o controlo apertado sobre a sua economia limita a confiança internacional;

  • BRICS querem reduzir a dependência do dólar, sobretudo depois do congelamento de reservas russas;

  • Bitcoin continua a ser demasiado volátil para substituir uma moeda de reserva;

  • A maior fragilidade pode estar nos próprios EUA: dívida pública crescente, uso político do dólar e erosão da confiança nas instituições.

Conclusão: o dólar não vai desaparecer tão cedo, mas já não vive num mundo em que a sua liderança é garantida.

Artigo, adaptado, originalmente escrito nas edições semanais da nauta dos dias 16 e 23 de maio de 2026.