Entre setembro e outubro de 2023, através de conversas de café e reuniões virtuais, formou-se a nauta, uma equipa de jovens madeirenses com um único objetivo: democratizar a literacia financeira em Portugal.

Ambicioso? Sem dúvida! Mas a nossa equipa tinha uma arma secreta inesperada… a nossa própria baixa literacia financeira. Justamente por isso, éramos quem melhor conhecia esta grande problemática.

O Contexto

Em julho de 2023, a Comissão Europeia publicou o Eurobarómetro 525, uma monitorização dos níveis de literacia financeira na União Europeia. O resultado chocou Portugal. Nós, portugueses, já sabíamos que a literacia financeira do país era reduzida. No entanto, o Eurobarómetro revelou que a situação era ainda mais grave, afinal estávamos mesmo entre os piores da Europa.

Para compreender, em pleno, esta problemática, é importante ir aos detalhes do relatório. De forma resumida, a análise que foi feita separou a literacia financeira em 2 vertentes: conhecimento e comportamento.

Para caraterizar o conhecimento dos indivíduos, foram feitas 5 perguntas gerais, como, por exemplo, “como funciona a inflação?”. Já para caraterizar os comportamentos contabilizaram-se os hábitos financeiramente responsáveis dos inquiridos, como, por exemplo, o registo das despesas.

Finalmente, para atribuir uma classificação de literacia financeira, foram fundidas as classificações de conhecimento e comportamento com pesos equivalentes.

Ou seja, de forma simplificada, a literacia financeira é calculada segundo esta equação:

Literacia Financeira = Conhecimento Financeiro + Comportamentos Financeiramente Responsáveis

No que toca ao conhecimento financeiro, Portugal encontrava-se no penúltimo lugar da Europa. Apenas 16% dos portugueses conseguiram um nota elevada. Atrás de nós só ficou a Roménia, com 13%.

Conhecimento financeiro dos europeus segundo o Eurobarómetro 525, 2023.

No que toca aos comportamentos financeiramente responsáveis, Portugal ficou em 8.º lugar, acima da média europeia. Isto não deverá surpreender ninguém; os portugueses sempre foram cuidadosos com o seu dinheiro.

Comportamentos financeiramente responsáveis dos europeus segundo o Eurobarómetro 525, 2023.

O surpreendente, é que a nossa classificação de literacia financeira é a pior da Europa (a par da Letónia). Sim, apesar de os portugueses terem mais cuidado com o dinheiro do que a média da Europa, o nosso conhecimento é tão baixo que afunda por completo a nossa classificação de literacia financeira.

Literacia financeira dos europeus segundo o Eurobarómetro 525, 2023.

Infelizmente, aquando da publicação deste relatório, a imprensa portuguesa interpretou mal os resultados do mesmo, focando-se no conhecimento financeiro e não na literacia financeira. Ou seja, multiplicaram-se os títulos de que Portugal estava em penúltimo lugar na Europa em literacia financeira. Mais uma vez, errado! Estamos mesmo em último lugar.

A tese da nossa equipa é que isso pode mudar.

A Oportunidade

Algures em setembro de 2023, estávamos 3 amigos madeirenses num café quando eventualmente surgiu a ideia da nauta.

O nosso logótipo, desde o início.

O nosso contexto também é importante.

Na altura, o arquipélago da Madeira, Região Autónoma de Portugal, apresentava a 2.ª maior taxa de risco de pobreza ou exclusão social do país, apenas atrás do arquipélago dos Açores. Embora a taxa de risco de pobreza da Madeira esteja a diminuir ano após ano, enquanto madeirenses sentimos na pele o efeito da baixa literacia financeira na nossa ilha.

As nossas poupanças eram reduzidas e a nossa literacia financeira era baixa.

Éramos também jovens pertencentes à geração mais qualificada do nosso país. Daí, levantou-se a questão: se somos tão qualificados, por que não podemos ter uma literacia financeira superior às gerações anteriores?

Se somos tão qualificados, por que não podemos ter uma literacia financeira superior às gerações anteriores?

Quando não encontrámos nenhuma razão, por nós próprios, fomos à procura dela. Perguntámos aos nossos amigos e familiares, através de inquéritos e entrevistas.

Resultados de um dos nossos questionários aos jovens portugueses (1 de 2).

Resultados de um dos nossos questionários aos jovens portugueses (2 de 2).

Eis algumas das conclusões:

  • Os jovens portugueses não têm conhecimentos fundamentais suficientes para acompanhar as áreas das finanças, da economia e do empreendedorismo;

  • Os jovens portugueses sentem que não têm acesso a nenhuma plataforma, em língua portuguesa, com informações sobre a atualidade da área das finanças, da economia e do empreendedorismo;

  • Os jovens portugueses não têm acesso a conteúdo em formato apelativo, facilmente digerível e divertido, da área das finanças, da economia e do empreendedorismo;

  • Até 40% dos jovens portugueses não têm confiança nos seus conhecimentos de literacia financeira.

Os principais obstáculos à literacia financeira dos jovens portugueses.

Ou seja, os principais obstáculos à literacia financeira dos jovens portugueses são a falta de conhecimentos básicos, a escassez de conteúdo em língua portuguesa, paywalls que bloqueiam o acesso à informação e conteúdo aborrecido. A combinação destes obstáculos é tão inibidora que faz com que os jovens tenham baixa confiança nas suas capacidades, algo que o Eurobarómetro já tinha detetado, ao revelar que Portugal apresenta a pior classificação em conhecimento financeiro quando essa avaliação é feita pelos próprios indivíduos.

Conhecimento financeiro auto-classificado pelos europeus segundo o Eurobarómetro 525, 2023.

Assim, qualquer sugestão de solução à problemática da baixa literacia financeira entre os jovens portugueses tem de combater, ao mesmo tempo, esses 4 obstáculos. Para ter sucesso, é necessário ter conteúdo educativo, agregar a informação mais importante da atualidade, escrever em português e ser divertido (para jovens). Finalmente, é fundamentalmente necessário fornecer acesso de forma gratuita para não aumentar a desigualdade no acesso à literacia financeira!

Estas conclusões, que surgem a partir de extensas entrevistas e múltiplos inquéritos que a nossa equipa fez, vão ao encontro das conclusões de outras pessoas a trabalhar nesta área. Por exemplo, Lourenço Reis, cientista comportamental e cofundador da Laicos, escreveu para o Doutor Finanças, em setembro de 2025, que grande parte dos programas de literacia financeira tem pouco impacto na mudança de comportamentos, sobretudo quando:

  • Não são adaptados às necessidades reais das pessoas;

  • Usam linguagem demasiado técnica;

  • Não se conectam com as decisões do dia a dia de cada um;

  • Ignoram as emoções negativas ligadas ao dinheiro.

Ou seja, é necessária personalização das ofertas para o combate à baixa literacia financeira. A personalização, só por si, não é suficiente, mas é um requerimento fundamental para desenhar soluções nesta área. Sobretudo quando se fala dos jovens portugueses. Com todo respeito por Mário Centeno e o seu fantástico currículo, não surpreende que a juventude prefira influencers digitais com pouca credibilidade aos conselhos do então Governador do Banco de Portugal. Não é uma questão de credibilidade e competências, é antes uma questão de empatia e personalização.

A evidência científica mostra que grande parte dos programas de literacia financeira tem pouco impacto na mudança de comportamentos e que existe uma grande variabilidade na sua eficácia (alguns funcionam bem e outros nem tanto) — e, por isso, muitos programas não melhoram verdadeiramente o bem-estar financeiro das pessoas.

Lourenço Reis para o Doutor Finanças, Setembro de 2025.

A Nossa Solução

Sem surpresas, as 36 pessoas que nos ajudaram a diagnosticar as causas desta problemática aceitaram servir de cobaias para testar a nossa solução. Sem demoras, lançámos, no dia 21 de outubro de 2023, a 1.ª edição da nauta, a nossa newsletter semanal que serviria de protótipo para a nossa solução.

Na altura um simples ficheiro em PDF enviado via gmail, a nauta agregava as notícias mais importantes da semana (nas áreas da economia, empreendedorismo e mercados financeiros) com conteúdo educativo, escrito em português e de forma divertida e descontraída.

Lançada semanalmente, iteramos a nauta todas as semanas com feedback dos nossos leitores. Lentamente a palavra espalhou-se e, passado 2 meses, chegámos aos 100 leitores e perguntámos se a nossa solução estava a resultar. A resposta que nos deram foi clara, estava!

Assim, continuámos a melhorar, passo a passo, a nossa solução.

No início de 2024 começámos a enviar emails através de um serviço profissional, o beehiiv (serviço no qual fomos pioneiros em Portugal), com a nossa 1.ª publicação a ser lançada online. Depois, arranjámos um domínio e website, criámos redes sociais (Instagram e LinkedIn) e, semana após semana, continuámos a oferecer a solução que queríamos ter tido enquanto jovens portugueses.

Como os leitores da nauta se sentiriam se a nauta deixasse de existir?

Tudo isto foi possível com o apoio do Programa de Inovação e Transformação Social (PRINT) da Direção Regional da Juventude do Governo da Madeira.

Agora, vamos aos detalhes da nossa oferta.

Conteúdo Educativo

Independentemente do trabalho de campo que é feito, a principal conclusão é a mesma do Eurobarómetro 525: há um baixo conhecimento financeiro inerente ao nosso país.

Não há soluções fáceis e muito menos soluções únicas. Resolver este eixo da problemática implica múltiplas soluções para diferentes demografias nos mais variados contextos socioeconómicos. Para os jovens portugueses, a nossa proposta de valor é oferecer conteúdo educativo de forma curta, simplificada e, sempre que possível, embutida na atualidade.

Para tal, criámos o ABC do Dinheiro, um dicionário comunitário que explica termos das áreas das finanças, da economia e do empreendedorismo em linguagem acessível. É como se um jovem estivesse numa cervejaria artesanal com o Mário Centeno quando ele tinha 25 anos. Vamos a um exemplo:

Na edição da nauta do dia 31 de agosto de 2024, escrevemos sobre a importância da NVIDIA, empresa norte-americana de chips, para a economia mundial. No contexto dessa edição, surgiram os termos Front Office e Back Office. Estes termos são de tal forma ubíquos que são utilizados em inglês, mesmo no mundo empresarial português. Como tal, decidimos decifrá-los no ABC do Dinheiro dessa edição.

Front Office é a “cara” da empresa, ou seja, aquilo com que os clientes interagem. Back Office é tudo o que torna a existência do Front Office possível mas que está escondido dos clientes.

Por exemplo, numa pizzaria as mesas, o atendimento de clientes e as entregas são o front office. Na mesma pizzaria, porém, a cozinha, a contabilidade, o armazém, a logística dos ingredientes frescos e da lenha (sim, sem forno a lenha não é pizza como deve ser) é o back office.

ABC do Dinheiro da edição de 31 de agosto de 2024.

Simples, rápido, eficiente e… divertido!

É isso que os jovens preferem. Basta ver os resultados do mais recente questionário aos nossos leitores, onde cerca de 54% dos inquiridos indicam o ABC do Dinheiro como um dos elementos que os faz querer ler a nauta. Mais, para além desta rubrica, o nosso tom é simples e explicativo ao longo de toda a newsletter. Ou seja, 73% dos nossos leitores indicam que a informação facilmente digerível e a escrita acessível os faz querer ler a nauta.

Mas a newsletter é só um vetor. Nas redes sociais também lançamos o ABC do Dinheiro semanalmente:

E, como a nossa missão é democratizar o acesso à literacia financeira entre os jovens portugueses, agora que temos um website em constante evolução temos também uma secção dedicada ao ABC do Dinheiro, onde qualquer pessoa pode aceder a esta nossa rubrica.

O Front Office é a parte da empresa que interage diretamente com os clientes, enquanto o Back Office faz tudo nos bastidores para que o Front Office funcione.🍕🏢

Ainda na vertente da democratização, qualquer pessoa/organização pode contribuir para este dicionário comunitário. Por exemplo, a Junior Data Consulting contribuiu com o ABC do Dinheiro referente às Júnior Empresas na edição de 21 de dezembro de 2024.

Agregação de Informação

Este é um dos vetores mais importantes nesta problemática. Surpreendentemente, é normalmente ignorado pela maioria dos programas que tentam combater a baixa literacia financeira no nosso país. Se a nossa equipa não fosse um grupo de jovens, nós também a teríamos ignorado.

A informação, em português, existe. Mas está desagregada entre múltiplas plataformas, é geralmente escrita de uma forma intragável e está regularmente atrás de uma paywall (especialmente quando é mais importante e interessante). Ou seja, a informação existe, sim, mas os jovens não têm acesso útil. Sentíamos isto na pele.

Por isso, quando começámos este projeto, perguntámos aos jovens o que os faria ter mais interesse nestes temas e, como 92% das respostas demonstraram, o fator mais relevante seria ter a informação mais importante agregada num só sítio. Dois anos depois, esse continua a ser o fator mais relevante com 89% dos nossos leitores a indicarem que a nossa agregação das notícias mais importantes da semana é uma das razões pela qual leem a nossa newsletter.

Há duas vertentes importantes aqui. Primeiramente, nós somos jovens portugueses, logo sabemos as notícias que nos interessam. Esta é a vertente da curadoria. Os nossos leitores claramente apreciam a curadoria que fazemos todas as semanas. Depois temos a vertente da explicação. Não basta apresentar a informação (com links para os sites de jornalismo que a produziram), é necessário explicar o contexto que justifica a sua importância.

Por exemplo, na nossa rubrica “Praça do Comércio” onde fazemos um resumo semanal do que aconteceu nos mercados financeiros a nível global e nacional, é comum destacarmos a notícia mais importante da semana. Se, numa dada semana, a Reserva Federal dos Estados Unidos da América (Fed) aumentar a taxa de juros do dólar, o efeito dessa decisão nos mercados financeiros é muito mais importante do que o movimento das ações do Benfica, obviamente. No entanto, escrever que a Fed aumentou os juros em x% não é suficiente. É preciso explicar o porquê da decisão e o seu efeito nos mercados. Assim, a curadoria e a explicação são ambas importantes na agregação da informação.

Estive a trabalhar offshore recentemente durante várias semanas. E lá no navio, um pouco isolado do resto do mundo, a única fonte de notícias que eu seguia sem falhar e com todo o gosto era o vosso boletim semanal. Obrigado pela companhia, e boa continuação! Grande abraço!

Leitor da nauta, 14 de janeiro de 2025.

Embora a nomenclatura de curadoria e explicação não esteja universalmente estabelecida, o Reuters Institute já usou o termo inglês explainers para definir os agentes que fazem ambas ao mesmo tempo. Não se trata de uma substituição do jornalismo tradicional, mas sim de uma prestação de serviços paralela, com uma importância não-negligenciável no ecossistema da informação em plataformas digitais.

Ao colocar os links para as notícias originais, estamos a direcionar tráfico para os jornalistas (e as suas organizações). Acreditamos que na maior parte dos casos, esse tráfico é um novo vetor para as respetivas organizações, e por isso acreditamos ser uma mais-valia para o ecossistema da informação como um todo.

No entanto, dada a natureza semanal da nossa newsletter, a nossa agregação de informação pode pecar, por vezes, devido a timings infortunos. Por isso, queremos eventualmente agregar a informação em tempo-real, neste website, de modo a que os utilizadores da nauta não dependam da publicação da newsletter para terem a informação em tempo útil.

Diversão

Não basta criar conteúdo educativo e agregar e explicar a informação importante. Essas são as condições mínimas, mas os jovens exigem diferenciação e soluções “humanas”. Estamos a falar de diversão.

Se todos os jovens conseguissem ler as 766 páginas da sexta edição da bíblia financeira (Security Analysis de Benjamin Graham & David L. Dodd), a literacia financeira em Portugal era mais alta. Infelizmente, para a maioria, é aborrecido.

A solução não é torturar ninguém com manuais sobre investimentos, finanças pessoais, macroeconomia e empreendedorismo. Se o interesse não há está lá, não há muito a fazer. No entanto, é possível substituir os manuais por ofertas mais descontraídas e, quiçá, divertidas. Se essas ofertas conseguirem despertar o interesse dos jovens, os manuais lá estarão à sua espera. Este é o ponto de partida para a diferenciação mais importante da nossa solução, a diversão!

Quando escrevemos cada edição, temos sempre em conta a vertente da diversão. Queremos que os nossos leitores vejam a nauta como algo divertido e não como trabalho de casa. Não será divertido para todos… mas nada o é.

Exemplo de um meme que podem encontrar na nossa newsletter.

Escrevemos piadas, incluímos memes temáticos e até temos um humor auto-depreciativo. Se soa familiar é porque queremos escrever com um tom de conversa, como se fossemos amigos num café (até porque foi assim que surgiu a ideia original).

Nisto, o Reuters Institute também utiliza um termo que tem cada vez mais expressão no mundo moderno, infotainment. Quando os nossos leitores estão a ler a nauta, não estão a ler jornalismo nem recomendações financeiras, estão a ler uma newsletter que serve de explainer e infotainment ao mesmo tempo, em língua portuguesa.

Hoje, o nosso estilo de escrita e o humor utilizado são uma das razões pelas quais 66% dos nossos leitores continuam a ler a nauta.

A Proposta de Valor

Resumindo, ao agregar a informação mais importante, ao incluir conteúdo educativo no contexto da atualidade, e ao fazer tudo isto de forma divertida e descontraída, a nossa proposta de valor revoluciona o acesso à literacia financeira para os jovens em Portugal.

Os Resultados

Crescimento do nosso projeto até agora.

Desde a génese da nossa solução, a nauta cresceu constantemente, alcançando uma média mensal de crescimento na ordem dos 15%. Mais importante do que crescer, é saber se a solução resulta.

Afinal, a nauta aumenta a literacia financeira dos jovens portugueses?

A resposta, dada pelos nossos leitores num questionário massivo em agosto de 2025, é que sim! Mais de 90% dos nossos leitores sentem que a nauta contribui para um aumento da sua literacia financeira, independentemente de como classificam o seu nível de conhecimento.

Nada nos podia orgulhar mais, mas queremos continuar a melhorar a nossa solução.

Grau de Satisfação dos leitores da nauta.

A newsletter, embora um grande sucesso, é apenas o início (era suposto ser apenas um protótipo). Com o tempo, queremos criar uma plataforma que serve cada vez mais jovens portugueses. Estamos apenas no início dessa visão.

Alguns dos objetivos da nossa visão, tudo em português.

Hoje, a nauta tem milhares de visualizações na redes sociais e no website, métricas extraordinárias na newsletter (muito acima da média na indústria) e parcerias com júnior empresas das quais muito nos orgulhamos.

Isto é só o começo!