24 de janeiro de 2026

Boa tarde, coisinha sexy!
Esta semana escrevemos sobre o contra-ataque Europeu às finanças dos Estados Unidos da América, sobre a nova EU Inc. e sobre a rivalidade Ryanair vs. Elon Musk.
Vamos lá!

PSI -0,31%

STOXX600 -0,11%

S&P500 -0,40%

NASDAQ -0,25%

EUR/USD 1,60%

OURO 8,22%

CRUDE 3,92%

BITCOIN -4,96%

PLTR -5,28%

TSLA 2,18%

NFLX -6,43%

EGL -10,71%

Dados obtidos às 12:15 do dia 24 de janeiro de 2026. Definições no final da nauta.

MERCADOS FINANCEIROS

Praça do Comércio

“Bons du Trésor américains à vendre ! Cinq dans le sac, dix sur l’addition, service compris!”

A notícia mais importante da semana: vender os Estados Unidos da América (EUA)!

Uff, esta foi mais uma semana à Donald Trump

Depois de escalar a tensão entre os EUA e a União Europeia (UE), colocando em causa a NATO por causa da sua ambição em torno da Gronelândia, Trump acabou por admitir um possível acordo mais agradável para todas as partes envolvidas.

Porque é que Trump recuou? 

A resposta certa é que ninguém sabe o que vai na cabeça dele, mas eis umas pistas:

  1. Os mercados reagiram negativamente às ameaças de Trump contra os aliados dos EUA, com os investidores a escapulir de ativos expostos aos norte-americanos;

  2. A Dinamarca anunciou que vai vender 100 milhões de dólares em obrigações dos EUA e, embora esse não seja um valor particularmente relevante para os norte-americanos, se a moda pega a coisa pode complicar, até porque os investidores europeus detêm, pelo menos, 2 biliões de dólares em obrigações dos EUA;

  3. A UE pôs em causa o acordo comercial com os EUA… e umas horas depois Trump recuou com as ameaças tarifárias.

Embora as relações estejam em baixo, com Christine Lagarde, Presidente do Banco Central Europeu, a sair de um jantar por causa do Secretário de Comércio dos EUA, os acordos continuam a avançar. 

Mas há uma lição para ambas as partes. 

Donald Trump continua a seguir a bússola dos mercados financeiros e os EUA estão financeiramente expostos à Europa como um todo. Ou seja, a UE pode enfrentar Trump, não no campo de batalha, mas sim nos mercados financeiros.

Para os investidores individuais, os investimentos TACO (do inglês Trump Always Chickens Out) continuam a fazer sentido, pois Trump continua a ceder sempre nas suas ameaças… sobretudo no que diz respeito ao comércio internacional.

E não… a Venezuela não é um contra-exemplo porque a Europa não é a Venezuela. 

Escreve o banco (norte-americano) J.P. Morgan que a UE não atacará financeiramente os EUA porque isso seria “suicídio”. É apenas mais um exemplo de que os “americanos” não compreendem os europeus… na Europa começaram-se duas guerras mundiais, é melhor não testar a nossa capacidade de auto-destruição, gringos.

EUA dólar vs Euro, ao longo do último ano. Ou seja, desde o início do 2.º mandato de Trump.

Olho no fogão: investimentos passivos podem ser uma bolha!?

Investimentos passivos, como os ETFs, que são muito adorados por investidores portugueses, estão na moda. Michael Burry, o lendário investidor que apostou contra a bolha imobiliária dos EUA que levou à crise de 2007/2008, já várias vezes afirmou que os investimentos passivos poderão conduzir a outra bolha.

A lógica é simples, se toda a gente investe passivamente, nas mesmas ações, elas invariavelmente sobem. Mas… assim toda a gente fica feliz, certo!?

Errado!

Os mercados financeiros não são números ficcionais no Excel, são representações aproximadas da saúde e eficiência das empresas no mundo real. Se as ações mais populares tendem a subir por causa dos investimentos passivos, arriscam-se a deixar de representar o mundo real. Assim esta moda poderá representar uma bolha.

Recentemente, a revista The Economist voltou a escrever sobre este assunto porque um artigo académico está a preocupar os investidores profissionais… é que os “selecionadores de ações” têm muito menos margem de manobra que os investimentos passivos e, assim, a bolha torna-se cada vez mais provável.

No nosso retângulo: Galp a pensar no futuro!

A Galp concluiu a instalação da maior unidade de produção de hidrogénio verde da Europa. A construção na refinaria de Sines deverá iniciar a produção na segunda metade de 2026.

ECONOMIA

O nome é Inc. EU Inc.

Ursula von der Leyen anunciou em Davos a criação do EU Inc.

EU Inc é uma nova estrutura pan-europeia concebida para simplificar as operações das startups na União Europeia.

O plano é introduzir um quadro jurídico opcional à escala da UE que complementa, em vez de substituir, as estruturas jurídicas nacionais existentes.

As principais características do EU Inc serão:

  • Uma entidade jurídica unificada ao abrigo do direito da UE;

  • Um registo digital centralizado, que permite o registo de empresas em qualquer Estado-Membro no prazo de 48 horas;

  • Uniformização de documentação;

  • Regras uniformes para a disponibilização de stock options.

Porque é que isto é importante?

As empresas – e em particular as startups - europeias precisam lidar com complexas regras burocráticas, específicas a cada país, ao se expandirem além-fronteiras.

Apesar de proteger empresas e cidadãos europeus, a burocracia atual prejudica o crescimento e competitividade face a empresas americanas e chinesas. Regras uniformes permitirão operações transfronteiriças sem barreiras, facilitando financiamento e atraindo investimento global.

No entanto, este é ainda apenas um anúncio. A proposta legislativa do EU Inc deverá ser entregue ao Parlamento Europeu no primeiro trimestre de 2026. Se tudo correr bem, a implementação ocorrerá em 2027.

A ACONTECER

✈️💸 O ego descola, e as vendas? Estão bem, obrigado! - Michael O’Leary, CEO da Ryanair transformou um insulto de Elon Musk numa aula prática de marketing não convencional. A troca de farpas no X (antigo twitter) deu à Ryanair “publicidade fantástica” e fez as vendas crescerem entre 2% e 3%. Pelo meio, Musk chegou a ameaçar comprar a companhia, avaliada em 30 mil milhões. Entre piadas sobre filhos adolescentes e a “Promoção para Idiotas”, O’Leary mostra que, no low cost, até um beef digital pode voar alto.

Rapidinhas

Haverá um novo apoio público às empresas de restauração, disponível a partir de fevereiro. Parte do apoio é um investimento de até 60 mil euros, dos quais 30% serão a fundo perdido.

A United Petfood irá instalar uma fábrica de ração para cães e gatos em Rio Maior. O investimento de 33 milhões de euros deverá criar 50 postos de trabalho e conta com apoio público.

A equipa portuguesa RAID venceu o hackathon do Fundo Europeu de Defesa e alcançou o 2.º lugar na final europeia, com um sistema inovador de interseção de drones de baixo custo.

A produtora de cimentos Secil comprou a Argatecnic, uma empresa portuguesa, especializada na produção e comercialização de argamassas.

A Renault está a trabalhar com a empresa de defesa Turgis Gaillard para criar uma indústria francesa de drones militares.

A Comissão Europeia aprovou o oitavo pagamento a Portugal do PPR, no montante de 1,16 mil milhões de euros. 

A startup ucraniana Preply alcançou o estatuto de unicórnio ao levantar 150 milhões de dólares numa ronda de investimento série D, para expandir a sua tecnologia de IA no ensino de línguas. A Indico Capital Partners participou nesta ronda.

Um grupo de organizações europeias estará a preparar-se para lançar a sua própria plataforma de redes sociais, W (alternativa ao X, antigo Twitter).

O governo russo já liquidou cerca de 71% das reservas de ouro do seu fundo soberano para financiar o seu orçamento e a guerra na Ucrânia.

O ex-Presidente de Nova York, Eric Adams, lançou o NYC Token, uma memecoin que chegou a valer centenas de milhões, mas cujo valor caiu mais de 80% em minutos, levantando suspeitas de um rug pull*.

O Eurogrupo escolheu o governador do Banco Central da Croácia, Boris Vujčić, como vice-presidente do Banco Central Europeu.

O Parlamento Europeu enviou o acordo UE-Mercosul para o Tribunal Europeu, a fim de verificar possíveis violações da legislação comunitária.

NAUTA DA SEMANA
blueOASIS

O oceano também precisa de dados e a blueOASIS acaba de garantir combustível novo para essa missão. A empresa portuguesa captou 3,75 milhões de euros numa ronda liderada pela Insight Venture, com o reforço da Portugal Ventures e da Dexterity, para acelerar o desenvolvimento e a expansão da sua tecnologia de monitorização oceânica. 

Mas afinal, o que faz a blueOASIS?

A blueOASIS desenvolveu o Hydrotwin, uma plataforma inteligente que “ouve” o oceano. Através de acústica submarina, sensores passivos, IoT e inteligência artificial, o sistema consegue detetar, classificar e localizar fenómenos em tempo real, desde baleias e golfinhos até embarcações ilegais ou drones subaquáticos. Tudo isto sem perturbar o ambiente: aqui ninguém grita debaixo de água, só se escuta com atenção.
Já testada em locais como o Faial, o Porto de Lisboa, Itália, Dinamarca, EUA ou Tailândia, a tecnologia provou que funciona fora do laboratório e dentro do oceano real, inclusive em exercícios da Marinha Portuguesa como o REPMUS.

E o que vem a seguir?

Com este investimento, a blueOASIS quer acelerar a componente comercial, evoluir o Hydrotwin e avançar com a criação do North Atlantic Acoustics Center, no Faial. A ambição passa por instalar centenas de sensores no Atlântico nos próximos dois anos, reforçando a proteção ambiental, a segurança marítima e o posicionamento de Portugal na linha da frente da ocean intelligence, porque para proteger o oceano é preciso muita tecnologia, dados e decisões bem informadas. E, neste caso, com sotaque açoriano.

CANTINHO DO EMPREENDEDORISMO

🚀 O Técnico faz ciência a alta velocidade - O Instituto Superior Técnico (IST) realizou o seu primeiro ensaio hipersónico em Portugal, no tubo de choque ESTHER, no campus de Loures. O teste atingiu velocidades comparáveis a atravessar o país de norte a sul em pouco mais de cinco minutos. Esta experiência permitirá estudar fenómenos que ocorrem a velocidades várias vezes superiores à do som, como a reentrada de foguetões e naves espaciais na atmosfera, marcando a entrada de Portugal na capacidade experimental para este tipo de investigação.

🤖 A UpHill Health, do SNS para o RU - A portuguesa UpHill Health (que já foi nauta da semana) está a transformar o atendimento no SNS com soluções de IA para a triagem clínica e redução do tempo de espera nas urgências. As suas soluções, como a Hilly AI, já são utilizadas em várias unidades de saúde em Portugal e também está presente em Espanha. Após um crescimento sólido e certificação como dispositivo médico na UE, a healthtech prepara-se para entrar no mercado do Reino Unido em 2026.

RECOMENDAÇÃO

A essência de ser Estudante

Temos um novo artigo de opinião no website

No âmbito do Dia Internacional da Educação, levanta-se a questão: o que significa realmente ser estudante nos dias de hoje?

No artigo “Para Além do Diploma: A Essência de Ser Estudante Hoje”, Constança Matos, Diretora do Departamento de Expansão e Parcerias da Junior Data Consulting e aluna finalista da licenciatura de Gestão de Informação da Nova IMS, reflete sobre o papel da educação num mundo em constante transformação.

Entre diplomas, projetos, experiências extracurriculares e a vida em Júnior Empresas, Constança explora a ideia de que ser estudante é muito mais do que somar cadeiras feitas. Ser estudante é cultivar curiosidade, propósito e vontade de aprender ao longo da vida!

ABC DO DINHEIRO
Rug Pull

Um rug pull, ou "puxar o tapete" em português, é um tipo de fraude que normalmente é a última fase de um esquema pump and dump. Um rug pull típico funciona assim: os vigaristas criam imenso entusiasmo à volta de um ativo (por vezes até envolvendo celebridades para gerar mais atenção e legitimidade), atraindo um grande número de compradores e inflacionando o seu preço. Quando o preço do ativo já está muito inflacionado, os vigaristas “puxam o tapete”, ou seja, vendem a maioria das unidades do ativo, fazendo o preço cair a pique e deixando os restantes investidores na posse de um ativo sem valor. Infelizmente, esta é uma prática cada vez mais comum, especialmente no mundo digital, envolvendo criptoativos.

No adeus desta edição celebramos o Dia Internacional da Educação, a fazer aquilo que sabemos melhor: falar de dinheiro, economia e mercados de forma simples e direta. Se lês, partilhas ou recomendas a nauta, estás a contribuir para um Portugal com mais literacia financeira!

Qualquer feedback construtivo é muito bem vindo em
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Memes

As cotações apresentam os resultados semanais dos ativos referenciados. As quatro primeiras são índices que combinam os desempenhos de conjuntos de empresas. O PSI é o índice português, o STOXX600 é o índice das 600 maiores empresas europeias, o S&P500 e o NASDAQ são ambos dos EUA. As seguintes quatro são mercadorias e moedas. EUR/USD é o câmbio entre o euro e o dólar americano, ouro e crude dizem respeito aos contratos contínuos de ambos, e bitcoin é a mais popular criptomoeda (em euros).

As quatro últimas são ações de empresas que tiveram desempenhos notáveis durante a semana. Nesta semana temos PLTR para a Palantir, TSLA para a Tesla, NFLX para a Netflix e EGL para a Mota-Engil.

A nauta é uma newsletter semanal sobre a atualidade económica, financeira e empresarial, escrita em língua portuguesa. Não é jornalismo nem consultoria financeira, mas uma oportunidade para aprofundares os teus conhecimentos nestes temas e acompanhares o essencial do mundo dos negócios e mercados financeiros.

Escrita por João Ornelas Raínho, Mário de Pinto Balsemão e Nuno Martins,
com a colaboração de Cristina Berenguer.

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