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O Impacto Invisível: maternidade, carreira e reforma

Os desafios que as mulheres enfrentam na sua carreira profissional

Mar 8, 2026

Na primeira edição da nauta, destacámos Claudia Goldin, galardoada com o Nobel da Economia em 2023. A professora de Harvard foi a primeira mulher a vencer o prémio sozinha e apenas a terceira a alcançar em mais de 50 anos de existência do Nobel da Economia.

A investigação de Goldin contribuiu para uma nova compreensão dos papéis históricos e contemporâneos das mulheres no mercado de trabalho, revelando tendências de longo prazo e identificando algumas das causas do persistente gender pay gap. 

Nobel da Economia 2023 - Mind the Gap

Historicamente, as mulheres estavam integradas no mercado de trabalho até ao século XVIII, sobretudo através da agricultura familiar e de atividades produtivas domésticas nas sociedades agrárias. 

Com a industrialização no século XIX, assistiu-se a um declínio significativo da participação das mulheres casadas na força de trabalho formal, em parte devido à separação entre trabalho remunerado e trabalho doméstico.

As consideráveis diferenças salariais entre homens e mulheres podiam, então, ser atribuídas, em grande medida, a disparidades na educação e nas escolhas profissionais.

No início do século XX, as marés voltaram a mudar, quando o sector dos serviços ganhou proeminência, atraindo de novo as mulheres para o mercado de trabalho. Ao mesmo tempo, o nível de escolaridade das mulheres aumentou, ultrapassando mesmo o dos homens nos países desenvolvidos.

Ao examinar mais de 200 anos de dados históricos do mercado norte-americano, Goldin demonstrou que a participação das mulheres no mercado de trabalho não seguia uma trajetória ascendente ao longo do tempo. Em vez disso, evoluiu numa curva em forma de U: elevada nas sociedades agrárias, mais baixa durante a industrialização e novamente crescente na economia moderna.

A penalização da maternidade e o impacto nas finanças das mulheres

E o que explica a persistência da disparidade de rendimentos? Para Goldin, uma parte significativa da resposta surge num momento muito específico da vida profissional: o nascimento do primeiro filho.

A maternidade pode ser um divisor de águas na vida financeira das mulheres. A chamada penalização da maternidade (em inglês, child penalty) é hoje identificada como um dos principais motores da desigualdade salarial entre homens e mulheres e tem implicações profundas para o bem-estar financeiro e no planeamento da carreira a longo prazo.

Estudos internacionais mostram que o nascimento do primeiro filho provoca uma queda abrupta nos rendimentos das mulheres, com efeitos que podem persistir durante décadas. Em muitos países europeus, esta penalização traduz-se numa redução salarial média entre 4% e 10%, dependendo do contexto institucional e das políticas familiares. Em vários países europeus, a maior parte da desigualdade salarial surge após o nascimento do primeiro filho, não antes. Um estudo do Office for National Statistics no Reino Unido concluiu que as mães podem perder o equivalente a mais de 65 mil libras em rendimentos nos cinco anos após o nascimento do primeiro filho.

Contrastando com os homens, cujos salários tendem a aumentar, as mulheres raramente recuperam o ritmo de crescimento salarial que tinham antes do nascimento dos filhos. Segundo a análise de Corinne Low, professora de economia e políticas públicas da Wharton School, ter filhos gera uma penalização significativa nos rendimentos das mulheres: ao se tornarem mães, enfrentam uma queda imediata e persistente nos seus salários.

A penalização da maternidade afeta as mulheres mundialmente, de forma diferente. Fonte: H. Kleven, C. Landais, C. Leite-Mariante, “The Child Penalty Atlas”.

 A chegada dos 30 traz uma sensação de falta de tempo, entre o ter e o fazer tudo — a maternidade bate à porta, a sensação de realização a nível profissional, conciliar a carreira com os filhos e tarefas domésticas torna-se um desafio… Corinne Low apelida esta fase de o aperto (the squeeze).

As crescentes expectativas sobre a parentalidade, a valorização do tempo passado com os filhos, a maior dificuldade na conciliação entre responsabilidades familiares e profissionais, e interrupções na carreira, acabam por apenas penalizar profissionalmente as mulheres.

Enquanto algumas mulheres optam por mudar para empregos menos exigentes e com salários mais baixos, ou até abandonar o mercado de trabalho, outras continuam a trabalhar, mas enfrentam menos oportunidades de promoção, mesmo com qualificações e experiência comparável à dos homens. Vários estudos mostram que as empresas dão menos promoções às mulheres, mesmo às que não têm filhos, para evitar custos com possíveis licenças de maternidade.

Após a fase do aperto e com o crescimento dos filhos, vem o que Low apelida de “alívio irónico”: muitas mulheres têm dificuldade em recuperar o seu espaço no mercado de trabalho e igualar os rendimentos dos homens. A penalização da maternidade é um fenómeno global que se reflete também na taxa de empregabilidade das mulheres após serem mães. Países com políticas de licença parental e outros apoios governamentais ajudam a manter as mães empregadas.

Em 2024, o Expresso avançou que em Portugal, as mulheres tendem a manter o salário após a maternidade, enquanto os homens registam um aumento médio de cerca de 15%, segundo um estudo do projeto MERIT do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto.

Gráfico que compara o child penalty português com o Europeu.

O preço da maternidade em Portugal é cerca de metade da média Europeia, mas ainda há um longo caminho a percorrer. A Noruega e a Suécia, por exemplo, têm penalties de 3 e 9%, respetivamente. Podem parecer baixos, mas pensa só no que a inflação a 3% faz às tuas poupanças no fim do mês e agora imagina isso com os custos extra de uma criança.

O impacto financeiro da maternidade não se limita ao salário mensal. Ao longo da vida, pausas na carreira, reduções de horário ou progressões mais lentas traduzem-se em menos contribuições para a segurança social e para planos de reforma. Pequenas diferenças salariais acumuladas ao longo de décadas podem resultar em pensões significativamente mais baixas, ampliando o risco de vulnerabilidade financeira na velhice.

Este efeito cumulativo é frequentemente chamado de gender pension gap, a diferença entre as pensões de homens e mulheres, que em muitos países europeus ultrapassa os 25%.

Embora muitos destes fatores sejam estruturais, existem estratégias financeiras que podem ajudar a mitigar o impacto:

  • planeamento antecipado da carreira e das pausas profissionais;

  • reforço da poupança para a reforma em fases de maior rendimento;

  • investimento regular e de longo prazo;

  • partilha mais equilibrada das licenças parentais e responsabilidades familiares.

A literacia financeira não elimina desigualdades estruturais, mas permite antecipar riscos e tomar decisões mais informadas ao longo da vida.

Este artigo é uma aglomeração de vários artigos escritos em múltiplas edições na nauta, desde a primeira de todas (enviada em .PDF via gmail no dia 21 de outubro de 2023) até às edições de 17 de fevereiro de 2024 e 23 de agosto de 2025.

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