
Como é possível o país com as maiores reservas de petróleo do mundo estar em completo colapso económico? Foi esta a pergunta que motivou a viagem (virtual) do nosso estagiário a Caracas…
Início do séc. XX: A calma antes da tempestade
A República da Venezuela é um estado independente desde 1830. Até ao início do século XX, a economia da Venezuela era essencialmente agrícola, com o café e o cacau como principais exportações. O país era relativamente subdesenvolvido, com uma população pequena e infraestruturas limitadas. Mas tudo iria mudar.
Década de 1920: Jackpot!
A descoberta de petróleo marcou um ponto de viragem para a Venezuela. Em 1922 uma vasta quantidade de petróleo foi descoberto na região de Maracaibo. Este foi o início do primeiro boom do petróleo venezuelano. Rapidamente, o petróleo tornou-se o sector económico dominante do país, apoiado pelos vários regimes ditatoriais que, sucessivamente, governavam a Venezuela.

Um mapa das reservas mundiais de petróleo segundo a OPEC, 2013. A Venezuela tem as maiores reservas de petróleo do mundo
Sembrar el petróleo
Entre 1920 e 1935, as receitas da exploração do petróleo dispararam. Este recurso passou a representar mais de 90% das exportações do país. Os sinais eram claros: a economia venezuelana estava completamente dependente do petróleo. Os restantes setores como a agricultura e a indústria foram desaparecendo. Isto é um fenómeno económico conhecido como “doença holandesa”. A solução encontrada foi “semear o petróleo”: o governo venezuelano começou a reinvestir os lucros da venda do petróleo nos restantes setores económicos, numa tentativa de incentivar a produção agrícola e industrial.
Os sinais eram claros: a economia venezuelana estava completamente dependente do petróleo. Os restantes setores como a agricultura e a indústria foram desaparecendo. Isto é um fenómeno económico conhecido como “doença holandesa”.
Money, money, money
A Segunda Guerra Mundial trouxe mais uma oportunidade para a Venezuela capitalizar na venda de petróleo às nações em guerra. Nesta altura, apenas 3 multinacionais (Gulf, Royal Dutch Shell e Standard Oil) controlavam 98% da produção petrolífera da Venezuela. No entanto, isto era benéfico para o país pois estas empresas eram legalmente obrigadas a ceder 50% dos seus lucros ao Estado. Os petrodólares estavam a fluir constantemente, o que permitiu aos governos modernizar as infraestruturas do país e investir a riqueza na educação, saúde e qualidade de vida da população. O crescimento económico levou a um grande influxo de imigrantes para a Venezuela, o que explica o facto de muitos portugueses - e, em especial, madeirenses - terem emigrado para este país.
Venezuela, a senhoria do petróleo
Até à década de 1960, a produção de ouro negro no território venezuelano era dominada por empresas privadas - multinacionais britânicas e americanas. A Venezuela era basicamente um rentier state; i.e. um estado que deriva grande parte da sua receita através da renda paga pelas multinacionais que exploram os seus recursos económicos. Este modelo de gestão estatal garantia um fluxo constante de petrodólares para os cofres venezuelanos, mas também garantia uma dose saudável de corrupção, desigualdade social e desinvestimento em outros setores. É aqui que se dá outro momento-chave na história económica da Venezuela: a fundação da OPEC.
Mudança de paradigma - a OPEC
A Organização dos Países Exportadores de Petróleo (“OPEC”) foi criada a partir de um plano do então ditador venezuelano Pérez Jiménez. Jiménez pretendia mudar o paradigma da produção e exportação do petróleo, então dominado por um oligopólio de multinacionais britânicas e americanas - as Sete Irmãs. A OPEC, ao longo da década de 1960-70, foi tomando medidas para transformar o cartel privado do petróleo num cartel público estatal. Estas medidas incluíram nacionalizar as indústrias de petróleo, aplicar embargos e combinar os preços, para garantir o controlo do fornecimento mundial de petróleo. Agora eram as nações que ditavam as regras. A OPEC rapidamente tornou-se numa das mais influentes organizações no panorama geopolítico e económico mundial.

Mapa de petróleo da Venezuela, 1972.
Agora com controlo total da extração e exportação de petróleo e à beira de um novo boom, os venezuelanos poderiam experienciar um período de riqueza e aumento da qualidade de vida. O problema é que apenas uma ínfima parte dos venezuelanos de facto beneficiaram da nacionalização do petróleo. Afinal, a corrupção, que é endémica na Venezuela, não parou de existir com a criação da OPEC; pelo contrário, provavelmente até piorou!

A taxa de analfabetismo da Venezuela, com base em dados da UNESCO e do Instituto Nacional de Estatística (INE) da Venezuela.
Agora com controlo total da extração e exportação de petróleo e à beira de um novo boom, os venezuelanos poderiam experienciar um período de riqueza e aumento da qualidade de vida. O problema é que apenas uma ínfima parte dos venezuelanos de facto beneficiaram da nacionalização do petróleo.

Produção de petróleo bruto da Venezuela em barris de petróleo, 1965-2019.
Nacionaliza, bebé!
Estamos nos anos 70, e a economia da Venezuela está melhor que nunca! A OPEC decretou um embargo sobre os países que apoiaram Israel na Guerra do Yom Kippur, o que fez disparar o preço do petróleo. Os governos venezuelanos aproveitaram esta nova riqueza para financiar enormes programas de investimento público, para nacionalizar várias indústrias exportadoras. Até o Banco Central da Venezuela foi nacionalizado. O resultado? Um aumento, no curto prazo, da qualidade de vida dos venezuelanos, mas também da despesa pública, do défice, da inflação e da corrupção.
Alea Jacta est
Mas os problemas da Venezuela estavam só a começar: nos anos 80 o preço do petróleo caiu drasticamente, colapsando consigo a frágil economia venezuelana. Foram anos de resgates financeiros, austeridade e desordem social. Estavam lançados os dados para a subida ao poder de Hugo Chávez.
Uma nova esperança
Chávez foi eleito presidente em 1998, e, aproveitando uma nova subida de preço do petróleo instituiu reformas económicas que foram inicialmente bem sucedidas, ao reduzir a pobreza e a desigualdade, o que o tornou muito popular nas camadas mais pobres da sociedade. O que Chávez não conseguiu, como não tinha conseguido nenhum dos seus antecessores, foi mudar o paradigma da economia venezuelana: quando os preços do petróleo estão altos, a economia está pujante, quando os preços estão baixos, os venezuelanos sofrem.
O que Chávez não conseguiu, como não tinha conseguido nenhum dos seus antecessores, foi mudar o paradigma da economia venezuelana: quando os preços do petróleo estão altos, a economia está pujante, quando os preços estão baixos, os venezuelanos sofrem.
Pegar nos cacos
Ao longo do reinado de Chávez, a economia venezuelana foi, constantemente, entrando em declínio. As medidas populistas são caras e ineficazes para o crescimento económico, e quando o dinheiro acaba (quando os preços do petróleo estão baixos), a população passa fome. Após a morte de Chávez, Nicolás Maduro pegou nos cacos da economia do país e acrescentou-lhes uma nova camada de repressão, autoritarismo e pobreza. As sanções internacionais foram o golpe final numa economia moribunda.

Prateleiras vazias numa loja na Venezuela devido a escassez em 2014.
Esta é a Venezuela de 2025: um Estado estilhaçado, com uma economia exangue e uma população desesperada. Foi neste contexto que Nicolás Maduro foi removido através de uma operação militar especial orquestrada pelos Estados Unidos da América, no início de 2026.
Artigo originalmente escrito em duas partes nas edições semanais da nauta dos dias 24 e 31 de agosto de 2024.





