
Porventura já ouviste falar do niilismo (ou, em inglês, nihilism), uma corrente filosófica que rejeita certos aspetos da realidade humana, como o sentido da vida, e que foi popularizada pelo filósofo alemão Friedrich Nietzsche. Em 1882, Nietzsche prenunciou a morte de Deus. Em 2025, poderemos estar à beira de enterrar outra entidade mítica: o Capitalismo.


Capitalismo é um sistema económico baseado na propriedade privada dos meios de produção e na livre iniciativa. As empresas procuram maximizar o lucro, enquanto os preços e a distribuição de bens e serviços são determinados pelo mercado. A competição é um elemento central, incentivando a inovação e a eficiência. O papel do governo pode variar, mas geralmente inclui a regulação para assegurar a concorrência e proteger os direitos de propriedade. Na sua forma mais pura (capitalismo laissez-faire) este sistema funciona sem qualquer interferência do governo. No entanto, a maioria das economias modernas são mistas, combinando uma economia de mercado com alguma regulamentação governamental e a propriedade pública de certos setores.
Agora, o conceito de Niilismo Financeiro é atribuído ao analista financeiro Demetri Kofinas (que nem tem página na Wikipédia!). Descreve o sentimento crescente de que as vias tradicionais para a estabilidade financeira (casa própria, mobilidade ascendente, acumulação de património) estão cada vez mais fora do alcance das gerações mais jovens.
Há vários dados que ilustram este facto:
Habitação cada vez mais inacessível: Os preços medianos das casas em relação ao rendimento mediano estão a subir cada vez mais;
Distribuição desigual da riqueza: Os 50% mais pobres dos americanos viram a sua quota de riqueza estagnar ou diminuir, enquanto a riqueza dos 1% mais ricos continua a ganhar terreno.
Estas dificuldades culminam, para muitos Gen Zers, num distanciamento crescente do significado do dinheiro, da riqueza e do esforço num mundo em que os resultados financeiros parecem muitas vezes aleatórios ou desligados do mérito pessoal.
Em resposta a estes desafios estruturais, muitos recorrem a comportamentos financeiros de alto risco e alta recompensa, como as apostas desportivas, que explodiram em popularidade, as meme stocks, e o mercado de criptoativos (onde se incluem as memecoins), que promete recompensas financeiras muito maiores e mais rápidas do que os mercados tradicionais de ações.
Uma memecoin é uma criptomoeda baseada em memes ou piadas da internet, geralmente sem um propósito técnico inovador. As memecoins, como a Dogecoin e a Shiba Inu ganham valor sobretudo pelo entusiasmo das comunidades online e pelo apoio de figuras públicas. Ainda mais voláteis do que as criptomoedas tradicionais, as memecoins são puramente especulativas. Embora algumas acabem por ganhar adoção, muitas são movidas apenas por tendências virais e perdem valor rapidamente.
O niilismo financeiro é potenciado pelas redes sociais, que muitas vezes expõe casos de ganhos massivos feitos de forma aparentemente “ao calhas”. Porque é que vais perder tempo a analisar um potencial a longo prazo de uma ação, quando podes multiplicar o teu investimento 1000x numa memecoin? Só tens de estar no sítio certo à hora certa. Não há valor intrínseco, há apenas o timing perfeito.

Tirando o PPR, nada disto são práticas minimamente responsáveis.
O niilismo financeiro é muitas vezes o reflexo de um niilismo existencial e político mais profundo, em que a crença na justiça e na estabilidade se desvanece cada vez mais.
A desilusão económica, exacerbada por acontecimentos como a crise financeira de 2008 e as políticas monetárias da era da pandemia manifesta-se numa mudança cultural mais ampla no sentido do imediatismo e de estratégias alternativas de construção de riqueza.
Alguns analistas sugerem mesmo que o niilismo financeiro pode assinalar o declínio do capitalismo tradicional tal como os nossos pais e avós o conheceram.
Artigo, adaptado, originalmente escrito na edição semanal da nauta do dia 22 de março de 2025.




