“Cardeal Maldini, o que acha de metermos 100 mil paus em puts do S&P 500?” - Imagem gerada via IA.

O Vaticano é o país mais pequeno do mundo, com uma economia que depende de uma combinação de donativos, empresas privadas e investimentos para gerar receitas. A sua economia é envolta em secretismo.

Primeiro, há que distinguir entre duas entidades juridicamente distintas:

A Santa Sé é gerida administrativamente pela Cúria Romana – um conjunto de instituições que funcionam como se fossem os “ministérios” do Papa, o “chefe” da Santa Sé.

A Pontifícia Comissão para o Estado da Cidade do Vaticano é composta por cardeais apontados pelo Papa e é chefiada por uma Presidente, atualmente a irmã Raffaella Petrini.

A Santa Sé e o Vaticano têm, cada um, orçamentos próprios. No entanto, como ambos são geridos pela mesma entidade, os recursos de uma entidade podem ser usados para colmatar défices na outra.

Como é que a Santa Sé faz dinheiro?

A Santa Sé gera rendimentos através do Óbolo de São Pedro, um sistema de doações feitas diretamente à Santa Sé, de investimentos financeiros e de rendimentos patrimoniais.  A Santa Sé paga alguns impostos sobre propriedades não religiosas no território italiano.

Em 2024, as contas da Santa Sé apontavam para um défice de cerca de €83 milhões de euros.

As despesas incluem os gastos de funcionamento da Cúria e do aparelho diplomático: manutenção de dicastérios, salários de funcionários, fundos para caridade, funcionamento de embaixadas, entre outros.

Receitas e Despesas do Estado do Vaticano:

O Estado da Cidade do Vaticano não arrecada impostos diretos da população local, pois não há cidadãos tributáveis. As receitas do Vaticano provém principalmente de:

  • Turismo e Museus: Entradas dos Museus Vaticanos e visitas à Basílica de S. Pedro. O Vaticano atrai dezenas de milhões de visitantes anualmente, tornando esta uma fonte essencial de receita.

  • Venda de moedas e selos: O Vaticano emite moedas euro comemorativas e selos postais. Uma parte das vendas beneficia o orçamento do Estado.

  • Recursos próprios do Património: Rendas de propriedades no interior do Estado (por ex. imóveis alugados).

  • Doações ao Vaticano: Pequenas verbas voluntárias de turistas do mundo inteiro.

Quanto às despesas, o orçamento do Estado supre gastos administrativos (dos órgãos governativos), serviços públicos (saúde, correios, segurança), manutenção do património e apoio financeiro à Santa Sé.

Apesar da separação formal, a Santa Sé e a Cidade do Vaticano coordenam-se. Por exemplo, a Administração do Património da Sé Apostólica (APSA) gere ativos da Santa Sé e concede financiamento operacional, e parte desse financiamento vem dos rendimentos do território Vaticano.

IOR - o Banco do Vaticano

O Instituto para as Obras da Religião (IOR) é como é conhecido oficialmente o Banco do Vaticano – claro que este banco tinha de ter um nome tirado de um livro do José Rodrigues dos Santos. O IOR foi fundado em 1942 para gerir os fundos dos membros da Cúria Romana e das organizações da Santa Sé.

O trabalho do Banco do Vaticano é talvez a parte mais controversa e obscura da Santa Sé, e não ajuda o facto deste Banco (e as suas chefias) já ter estado envolvido em vários casos de má gestão, fraude, corrupção e até ligações ao crime organizado.

Atualmente, o IOR centraliza todos os investimentos mobiliários da Santa Sé, sob supervisão da Autorità di Supervisione e Informazione Finanziaria (ASIF). A ASIF é composta por um Conselho de Administração, composto por cardeais e especialistas financeiros civis.

Reformas do Papa Francisco

Como mencionámos anteriormente, os organismos financeiros do Vaticano já estiveram envolvidos em vários escândalos, particularmente o IOR. No pontificado do Papa Francisco, foram feitas várias reformas financeiras para assegurar uma maior transparência e segurança financeira do Vaticano e da Santa Sé.

A ASIF passou a publicar anualmente as demonstrações financeiras e balanços, e passaram a ser feitas auditorias independentes, em cooperação com autoridades internacionais.

Foi também criada uma Secretaria para a Economia, com jurisdição sobre todas as atividades administrativas e financeiras da Santa Sé. Para mais, foram feitas várias reestruturações internas e cortes nos gastos, que contribuíram para controlar o défice da Santa Sé – em 2023 a ASIF reportou um superávit de 27,6 milhões de euros.

Os investimentos do Vaticano

Sabias que o Vaticano é o país do mundo com mais terminais Bloomberg e analistas financeiros, per capita? A Santa Sé não é avessa aos investimentos, e quem melhor para recomendar ativos financeiros do que Deus Nosso Senhor?!

No entanto, os cardeais católicos não andam todos a comprar dogecoin e ações da Palantir. O IOR está proibido de investir em setores que contradigam os princípios fundamentais da Igreja – ficam de fora as indústrias da defesa, jogos de azar, biotecnologia, entre outras.

Em suma, a história financeira recente da Igreja é um reflexo das lutas internas desta instituição milenar entre o dogma e o espírito reformista.

Artigo, adaptado, originalmente escrito nas edições semanais da nauta dos dias 3 e 10 de maio de 2025.