Durante décadas, aprendemos a associar boa gestão a eficiência. Produzir mais barato, cortar desperdícios, otimizar processos, reduzir custos unitários. Esta lógica moldou empresas, cadeias de valor e até a forma como avaliamos sucesso económico. E durante muito tempo funcionou. O problema é que esse modelo foi desenhado para um mundo relativamente estável, com acesso previsível a matérias-primas baratas, energia acessível e cadeias globais que funcionavam quase sem fricção. O mundo tal como o conhecemos já não é assim.
As empresas hoje em dia operam num contexto marcado por volatilidade de preços, instabilidade geopolítica, dependência excessiva de recursos finitos e uma pressão crescente, tanto regulatória como económica, sobre tudo aquilo que antes era tratado como externalidade. Neste cenário, continuar a apostar apenas em eficiência é como tentar ganhar velocidade num carro que já está no limite do motor. Os ganhos existem, mas são marginais, frágeis e cada vez mais difíceis de sustentar.
As empresas hoje em dia operam num contexto marcado por volatilidade de preços, instabilidade geopolítica, dependência excessiva de recursos finitos e uma pressão crescente, tanto regulatória como económica, sobre tudo aquilo que antes era tratado como externalidade.
É aqui que a economia circular deixa de ser um conceito ambiental e passa a ser uma questão económica. Enquanto a eficiência pergunta como fazer o mesmo gastando menos, a circularidade procura criar mais valor com os mesmos recursos. Quando olhamos para um modelo linear, o valor é criado numa única direção: extrair, produzir, vender, descartar. Num modelo circular, o valor pode ser prolongado, recuperado e multiplicado ao longo do tempo, através da reutilização, da reparação, do recondicionamento e da reintegração de materiais no sistema produtivo. E existe uma lógica de acontecimentos a partir de um efeito chamado de efeito de cascata, onde um material ou produto, ao longo do seu ciclo de vida, é maximizado através de múltiplas reutilizações e transformações, em sequência, mitigando a aplicabilidade de recursos de maior para menor valor, prolongando a vida útil e minimizando o desperdício.
Num modelo circular, o valor pode ser prolongado, recuperado e multiplicado ao longo do tempo, através da reutilização, da reparação, do recondicionamento e da reintegração de materiais no sistema produtivo.
Implementar circularidade no cerne de uma empresa não tem como primeiro foco a redução de custos, mas sim a redução de dependências. Uma empresa que consegue manter materiais em circulação durante mais tempo, que desenha produtos pensados para durar ou ser recuperados, e que transforma resíduos em inputs, está estruturalmente menos exposta a choques externos. Menos dependente de matérias-primas virgens, menos vulnerável a flutuações de preços, menos sensível a interrupções na cadeia de fornecimento.
Uma empresa que consegue manter materiais em circulação durante mais tempo, que desenha produtos pensados para durar ou ser recuperados, e que transforma resíduos em inputs, está estruturalmente menos exposta a choques externos.
Para não falar na expansão do negócio que é pensar além das portas da fábrica. Por exemplo, os modelos de servitização (onde o valor deixa de estar apenas na venda de um produto e passa a incluir o seu uso, manutenção e desempenho ao longo do tempo) estão a redefinir a forma como as empresas crescem e vêem o ecossistema envolvente. Em vez de receitas pontuais, surgem fluxos recorrentes; em vez de foco exclusivo na produção, surge um incentivo económico claro para durabilidade, reparabilidade e eficiência ao longo do ciclo de vida. O facto da empresa continuar ligada ao produto depois da venda faz com que ganhe dados, previsibilidade e controlo, enquanto reduz desperdício e dependência de novos fluxos e terceiros. A competição deixa de ser pelo preço, mas sim pelo desenho, por inteligência do sistema e por capacidade de gerir valor ao longo do tempo. É uma reflexão que para muitas empresas é aterradora: vender menos unidades pode, paradoxalmente, significar criar mais valor.
A competição deixa de ser pelo preço, mas sim pelo desenho, por inteligência do sistema e por capacidade de gerir valor ao longo do tempo.
O erro mais comum é ver a circularidade como um custo adicional ou como uma exigência regulatória a cumprir com o mínimo esforço possível. Esse erro é surpreendentemente parecido com o que muitas empresas cometeram no início da digitalização, quando tecnologia era vista como despesa e não como infraestrutura essencial. Hoje, ninguém põe de parte folhas de Excel, sistemas de contabilidade e ERP, CRM, aplicações de gestão de tarefas, clouds, entre vários.
É importante levar a ideia de que circularidade não substitui eficiência, mas expande-a. Produzir de forma eficiente continua a ser importante, mas já não é suficiente. Num mundo de recursos limitados, cadeias instáveis e custos ocultos cada vez mais visíveis, o verdadeiro diferencial competitivo está em redesenhar o sistema onde simbioses se dão. E as empresas que perceberem isso mais cedo não estarão apenas a adaptar-se a uma nova narrativa ambiental, mas a posicionar-se melhor no mercado.
Artigo de opinião escrito no âmbito do Dia Mundial da Educação Ambiental (26 de janeiro).






