Na mais recente edição da nauta escrevemos sobre a forma como a União Europeia (UE) utilizou os seus investimentos nos Estados Unidos da América (EUA) para contra-ameaçar as tarifas de Donald Trump, Presidente dos EUA, e também as suas ambições na Gronelândia.

Porque é que as contra-ameaças europeias resultaram?

Porque os mercados financeiros acusaram a pressão. E porque Donald Trump utiliza a saúde dos mercados financeiros como um explorador usa uma bússola.

Nós explicamos:

A Escócia já muito deu ao mundo, desde saias masculinas até pancadaria aos ingleses, mas a sua principal exportação é mesmo um filósofo e economista nascido no século XVIII: Adam Smith.

Para uns o Pai da Economia e para outros o Pai do Capitalismo, Adam Smith ainda hoje influencia o debate político global. A mais provocadora das suas ideias é a ideia da Mão Invisível do Mercado. De forma simples, esta metáfora ilustra a forma como os mercados livres criam, “do nada”, incentivos para que indivíduos, a agir em puro interesse próprio, possam beneficiar os interesses públicos comuns.

Capitalismo é um sistema económico baseado na propriedade privada dos meios de produção e na livre iniciativa. As empresas procuram maximizar o lucro, enquanto os preços e a distribuição de bens e serviços são determinados pelo mercado. A competição é um elemento central, incentivando a inovação e a eficiência. O papel do governo pode variar, mas geralmente inclui a regulação para assegurar a concorrência e proteger os direitos de propriedade. Na sua forma mais pura (capitalismo laissez-faire) este sistema funciona sem qualquer interferência do governo. No entanto, a maioria das economias modernas são mistas, combinando uma  economia de mercado com alguma regulamentação governamental e a propriedade pública de certos setores.

ABC do Dinheiro, edição de 11 de janeiro de 2025.

Existem, como não podia deixar de ser, muitas críticas a esta ideia fundamental. Desde as clássicas oriundas de Karl Marx, às modernas oriundas de economistas comportamentais como Daniel Kahneman, que já venceu um Nobel de Economia. Seja porque a Mão Invisível aumenta a desigualdade ou seja porque indivíduos raramente são 100% racionais, a metáfora facilmente encontra obstáculos. Especialmente num mundo onde as alterações climáticas são causadas por externalidades da revolução industrial - externalidades atualmente ignoradas pelos mercados livres.

No entanto, a Mão Invisível do Mercado, mesmo que repleta de defeitos, poderá ser a derradeira salvação de um mundo ocidental que necessita de uma Administração dos EUA racional e relativamente bem comportada.

A coligação política que foi construída por Donald Trump é ironicamente diversa. Os seus apoiantes vão desde bilionários imigrantes maioritariamente financiados pelo Partido Democrata (como Elon Musk), líderes de pensamento do Vale do Silicone (encabeçados por Peter Thiel, da Máfia do PayPal), malucos como RFK Jr. e os tradicionais conservadores MAGA.

Com uma caderneta de cromos tão abrangente, discussões e fragmentações são uma certeza absoluta. De facto, a 1.ª delas já surgiu: banir imigrantes ultra-qualificados ou não?

Sim, dizem os ultra-conservadores, e não, dizem os gigantes tecnológicos que precisam de talento para manter os EUA na vanguarda da civilização. E este é o cerne da questão: a quem vai dar ouvidos Donald Trump?

Aos Mercados!

Os loucos mercados de Donald Trump continuarão a servir de barómetro às suas políticas económicas em tempo real. Assim foi no seu primeiro mandato e assim será no atual mandato. Qualquer que seja a política económica a ser debatida, primeiro terá de ser aceite pelos mercados financeiros e só depois será aceite pelo presidente do “mundo livre”.

A grande força moderadora do caótico Presidente dos EUA será a Mão Invisível do(s) Mercado(s).

Artigo, adaptado, originalmente escrito na edição semanal da nauta do dia 11 de janeiro de 2025.