Nem todos os tesouros são de prata e ouro.

Recentemente, a equipa da nauta escreveu um artigo de longa extensão sobre a má gestão económica da Venezuela. A premissa era simples, explicar como é que um país com riqueza em recursos naturais, nomeadamente petróleo, colapsou economicamente. Neste artigo, explicamos como é que um país pode usar o “ouro negro” a seu favor, criando uma economia utópica. Esse país é a Noruega, o exemplo perfeito!

A Noruega é um país nórdico, gelado e montanhoso, mas que conseguiu contrariar as suas desvantagens geográficas:

Mas então como é que a Noruega conseguiu atingir estas excelentes métricas? Spoiler: Não foi (só) com o bacalhau.

Como já antecipámos, a resposta mais simples seria: através da exploração de recursos naturais, principalmente o petróleo. No entanto, só isso não foi suficiente para países como a Venezuela, Angola e Rússia.

A grande diferença para estes países foi a forma como a Noruega usou os lucros dos seus recursos naturais. Em vez de desbaratar a sua riqueza como um jogador de futebol que acabou de ser contratado pelo Al-Qualquer Coisa, a Noruega cedo compreendeu que os seus recursos naturais eram limitados, e, de forma prudente, usou-os para constituir o maior fundo soberano do mundo.

Um fundo soberano é um fundo de investimento detido por um Estado, composto por ativos financeiros como ações, obrigações, bens imobiliários, metais preciosos ou outros instrumentos financeiros. Estes fundos investem a nível mundial para obterem rendimentos financeiros e diversificarem as fontes de rendimento de um país.

ABC do Dinheiro, edição de 9 de março de 2024.

De forma muito simplificada, a Noruega pode ser comparada a uma pessoa que ganhou a lotaria, mas continuou no seu emprego normal, e investiu num portfólio diversificado de ativos.

Assim, a Noruega usou a sua riqueza natural para diversificar as origens das suas receitas, diminuindo os riscos estruturais da sua economia e evitando a maldição dos recursos naturais e a Doença Neerlandesa que afetou a Venezuela. É assim que a Noruega, um país com metade da população de Portugal e metade do território coberto de fiordes, consegue ter a quarta melhor economia do mundo.

A “doença neerlandesa” (em inglês “dutch disease”) é um fenómeno económico em que a descoberta ou a exploração de um recurso natural, como o petróleo ou os minerais, por parte de um país, conduz a um aumento do valor da sua moeda. Isto torna outros sectores de exportação menos competitivos a nível internacional, levando ao seu declínio. Enquanto o sector rico em recursos naturais se desenvolve, a economia em geral pode sofrer uma redução da atividade industrial, a perda de postos de trabalho em sectores que não o dos recursos naturais e um desequilíbrio económico a longo prazo.

O termo teve origem na experiência dos Países Baixos na década de 1960.

ABC do Dinheiro, edição de 24 de agosto de 2024.

Hoje, a Noruega é talvez o melhor exemplo de uma economia mista e inclusiva, no qual há um equilíbrio entre a existência de setores públicos e um mercado livre. No entanto, é também um exemplo difícil de replicar, pois não é em todo o lado que encontra uma das maiores reservas de petróleo e gás natural do mundo.

Mas como nascem empresas utópicas em países utópicos?

Para além da riqueza natural da Noruega, é importante compreender qual o segredo para o sucesso do empreendedorismo nórdico: Como é que Suécia, Dinamarca, Finlândia e Noruega fomentam o crescimento de tantas grandes empresas multinacionais, em setores tão diversos como a Lego, a Carlsberg, o Spotify, o IKEA, a Maersk, e outras.

As empresas nórdicas contabilizam 13% do MSCI Europe, um índice das empresas europeias de maior valor; e geram (em relação à média europeia) melhor retornos no capital investido e melhores margens operacionais.

A margem operacional de uma empresa é um indicador financeiro que mede a eficiência operacional, mostrando a percentagem do lucro operacional em relação ao total das receitas. Este indicador reflete a capacidade de uma empresa gerar lucro a partir das suas operações principais, antes de deduzir juros e impostos. A margem operacional é calculada dividindo o lucro operacional pelas receitas totais e expressa em percentagem. Quanto maior a margem, mais eficiente é a empresa a controlar os seus custos e despesas operacionais.

Margem operacional = (Lucro Operacional / Receita Líquida) X 100

ABC do Dinheiro, edição de 18 de janeiro de 2025.

Segundo o The Economist, há razões que explicam este sucesso. Em primeiro lugar, é o “sangue” Viking dos empreendedores nórdicos. O pequeno mercado interno obriga as empresas a internacionalizar-se, procurando mercados mais rentáveis. A maior parte do volume de negócios é feito “fora de casa” nos mercados europeus e americanos. 

Outro fator chave é a rápida adoção de tecnologia, o que muitas vezes acontece por via do sacrifício de lucros a curto prazo, para investir em tecnologias que vão beneficiar as empresas a longo prazo. Esta mentalidade a longo prazo é também um fator importante para proteger as próprias empresas de aquisições hostis por competidores estrangeiros, o que permite que as empresas nórdicas tenham tempo para crescer e evoluir.

Todavia, talvez o fator crucial seja o fomento de ambiente fiscal e empresarial propício à criação e desenvolvimento de startups. É verdade que os impostos pessoais nos países nórdicos são dos mais altos no mundo. No entanto, os impostos sobre as empresas são relativamente baixos, providenciando estabilidade económica e fiscal às empresas. Para mais, os governos destes países são pouco burocráticos e adotaram cedo a digitalização dos serviços públicos. Dinamarca, Suécia e Noruega entram todos no top 10 de países onde há maior facilidade de fazer negócios.

Apesar de tudo, não há receitas perfeitas. As políticas protecionistas e anti-globalização da segunda presidência de Donald Trump podem desferir um duro golpe nas exportações das empresas nórdicas. Mas há uma coisa que é certa: se há coisa que os nórdicos fazem bem é empreender… e boa cerveja!

Artigo adaptado de duas edições da nauta, a edição de 18 de janeiro de 2025 e a edição de 9 de março de 2024.