Hoje, dia 12 de junho a Space Exploration Technologies Corporation, SpaceX para os amigos, vai começar a ser negociada em bolsa, no NASDAQ. Com o ticker $SPCX, a empresa de Elon Musk, até hoje a maior empresa privada do planeta, fará a maior entrada de sempre nas bolsas de valores, tornando-se assim uma empresa cotada pública.

Porque é que isto é tão importante?

As ações começarão a ser negociadas a 135 dólares cada, avaliando a empresa por volta dos 1,7 a 1,8 milhões de milhões de dólares, tornando-a assim uma das maiores empresas cotadas do planeta (a Microsoft, por exemplo, está atualmente perto dos 3 milhões de milhões).

São números astronómicos para um evento histórico… e a olho nu são números que parecem fazer sentido.

Afinal, a SpaceX não é só o hobby de um bilionário broligarca, é também a empresa que inventou foguetões reutilizáveis, reinventando assim a exploração espacial através da redução dos custos de transportar algo para o Espaço. É uma empresa desenhada de raiz para ser de outro mundo, e até agora assim tem funcionado.

No entanto, os números poderão ser demasiado astronómicos. Como escrevemos na edição semanal da nauta da semana passada (6/6/2026), a Morningstar, uma firma norte-americana especializada em serviços financeiros, afirma que a SpaceX está sobrevalorizada, apontando a um preço alvo de 63 dólares por ação e avaliando a empresa em “apenas” 780 mil milhões de dólares.

Assim sendo, resta-nos a nós (na nauta) investigar e descobrir o máximo possível sobre esta mega-corporação, disfarçada de startup, que promete abalar os mercados financeiros como nunca antes foram abalados. O que se segue é um longo artigo de análise à SpaceX, para ser lido com muito cuidado pois as forças gravíticas estão a deixar de fazer efeito!

O foguete Falcon 9, da SpaceX, é uma das maravilhas do mundo moderno.

O Início

A SpaceX foi uma empresa fundada em 2002, nos Estados Unidos da América (EUA), por Elon Musk, atualmente o homem mais rico do mundo. É, de múltiplas maneiras diferentes, uma empresa sem igual. Mas como chegou até aqui?

Elon Musk com uma banda de Mariachi durante o início da SpaceX, em 2002. Foto extraída de um pitch deck de 2016.

Antes da direita radical alternativa, e de todas as outras polémicas e controvérsias, Elon Musk criou duas startups. A primeira foi a Zip2, umas espécie de páginas amarelas da internet que foi vendida à Compaq. A segunda, iniciada com os lucros da primeira, foi a X, uma espécie de banco online que acabou por se fundir ao que veio a ser o PayPal.

Eventualmente, Elon Musk, então CEO da fusão, foi involuntariamente substituído por Peter Thiel (um dos membros originais da Confinity, nome original do PayPal). Depois do golpe, o X.com tornou-se oficialmente PayPal e foi a IPO (Oferta Pública Inicial, em português) em 2002. Pouco depois foi adquirido pelo eBay por 1,5 mil milhões de dólares.

A oferta pública inicial (OPI ou IPO na sigla inglesa significando Initial Public Offering) é o último passo da entrada de uma empresa privada em bolsa, e refere-se ao momento em que uma empresa privada oferece ações ao público geral pela primeira vez. É um passo importante, pois é uma maneira da empresa gerar capital, ganhar notoriedade e é uma oportunidade para os investidores iniciais capitalizarem o seu investimento.

ABC do Dinheiro

Os co-fundadores do PayPal lucraram imenso com a venda, principalmente Elon Musk. Aquando da venda, Elon Musk detinha 11,72% das ações do PayPal e assim encaixou cerca de 176 milhões de dólares, hoje equivalentes a 320 milhões. Já dava para um T3 na baixa de Lisboa!

A maior parte das pessoas, após alcançar tamanha riqueza, reformar-se-ia. Os cromos do PayPal não… Com uma net worth total acima das receitas de máfias como Camorra, ‘Ndrangheta e o Cartel Sinaloa, a chamada Máfia do PayPal fundou empresas como o Youtube, o LinkedIn, o Facebook, o Airbnb e a Tesla. Ou seja, este grupo de cromos criou parte do mundo moderno. Ainda dominam o Vale do Silicone e pior, apesar das divisões e facções – Reid Hoffman apoia os Democratas e Peter Thiel e Elon Musk apoiam Donald Trump - têm as patas metidas na política da maior superpotência do planeta, os EUA!

A Máfia do PayPal, um conjunto de cromos armados em Sopranos num artigo da Fortune de 2007. Elon Musk recusou estar nesta fotografia.

Destes nerds, Elon Musk provou ser o mais ambicioso. Por exemplo, enquanto Jawed Karim, Chad Hurley e Steve Chen se dedicavam ao YouTube, Elon Musk pegou na sua fatia de dinheiro e pensou em colocar estufas em Marte. É uma ideia profundamente estúpida.

Marte é um deserto absoluto, com poeira tóxica que entra em todos os orifícios, menos luz, mais frio e muita mais radiação do que a superfície da Terra. Para além de ser uma rocha horrível, com uma atmosfera venenosa e mortal, Marte é um planeta protegido por regras anti-contaminação, porque a última coisa que as Agências Espaciais querem é contaminar outros planetas com vida terrestre (até confirmarem se lá existe vida extraterrestre, isto é).

Portanto, a grande ideia de Elon Musk, com os seus 320 milhões de dólares, era a pior campanha de marketing possível em todo o Sistema Solar. Dá que pensar.

No entanto, ninguém fecha a porta a alguém que tem 320 milhões no banco. Nem os russos.

Reza a lenda que Elon Musk foi à Rússia tentar comprar 2 foguetões capazes de transportar a sua estufa para Marte. Os russos devem ter achado piada e deram-lhe alguma atenção, mas acabaram por sugerir um preço que Musk achou proibitivo. O mito é que, após recusar a proposta dos russos, Musk fez as contas durante a viagem de regresso e chegou à conclusão que havia algo de muito errado com a indústria dos foguetões.

Detalhes de Engenharia Aeroespacial

A primeira corrida espacial, entre os EUA e a União Soviética, começou porque os soviéticos perceberam que os foguetes podiam ser foguetões. Ou seja, em vez de armas, os foguetes podiam ser usados para explorar o Cosmos.

É uma mudança de paradigma nobre, mas os foguetões para exploração espacial herdaram uma caraterística muito relevante dos mísseis balísticos: só podiam ser usados uma vez!

Viajar de avião, por exemplo, seria muito mais caro se após a uma viagem a aeronave explodisse. A Ryanair ser uma companhia low-cost dá jeito, mas se depois de cada aterragem no aeroporto da Madeira tivessem de comprar um novo avião, o modelo de negócios nunca funcionaria.

Essa foi a grande revelação de Elon Musk: os foguetões, tal como os aviões, seriam muito mais económicos se fossem reutilizáveis. Bombas de uso único? Sim senhor! Meios de transporte de uso único? Inviável!

É claro, é muito mais fácil ter ideias do que executá-las. Os foguetões são efetivamente explosões controladas de forma a que o projétil escape da gravidade do nosso planeta. Construir um foguetão funcional já é difícil o suficiente… construir um reutilizável é basicamente impossível, que o diga a Blue Origin de Jeff Bezos (fundador da Amazon) que explodiu recentemente com um foguetão, o New Glenn, durante um teste. Para além da catástrofe imediata (a explosão destruiu a infraestrutura de lançamentos), o acidente é também uma catástrofe para os planos da NASA no que toca ao futuro do Programa Artemis e da recém-anunciada base lunar. It’s not rocket science…

O Índice do Idiota

Pode-se escrever muita coisa sobre Elon Musk, mas não se pode dizer que não tem conhecimentos profundos de engenharia. Efetivamente, não é Engenheiro na medida em que não é essa a sua formação (fez licenciaturas em Física e Economia nos EUA), mas tem um instinto natural para as leis da Física.

Um dos seus contributos para a engenharia é o Índice do Idiota.

Espera lá, porque é que estou a ler sobre engenharia na minha plataforma de literacia financeira? Nós explicamos:

De forma resumida, o Índice do Idiota quantifica o quão ineficiente é um processo de produção. Parece complicado, mas não é… basta dividir o custo final de um componente pelo custo total da soma das suas partes, no âmbito dos custos materiais.

Por exemplo, se um sumo de laranja custa 10 euros, cada laranja custa 50 cêntimos e são usadas 2 laranjas por sumo, o Índice do Idiota do sumo de laranja é 10 euros (10 a dividir por 1). Quem paga 10 euros por um sumo de laranja é um idiota.

Este conceito simples foi a matemática por trás da revelação de que seria possível produzir foguetões a custos muito mais reduzidos. Ainda hoje as empresas de Musk utilizam esta metodologia para encontrar processos pouco eficientes e corrigir esses processos o mais depressa possível.

O nascimento da SpaceX

Após rejeitar a extorsão russa, e aplicar o Índice do Idiota à indústria dos foguetões, Elon Musk decidiu usar metade da sua fortuna para começar a SpaceX.

A ideia da estufa em Marte ficou no passado.

Musk percebeu que havia uma oportunidade muito maior do que a pior campanha de marketing do Universo. Havia a oportunidade para criar a primeira empresa de fora deste mundo. Tudo o que era preciso fazer era criar foguetões reutilizáveis!

A primeira coisa a fazer era aplicar o Índice do Idiota a todos os componentes dos foguetões. Se o índice era elevado, então era estúpido comprar essa parte, sendo melhor construí-la. Outras filosofias importantes foram a integração vertical e construção de forma modular, tipo Lego e Minecraft, para melhorar a eficiência da produção.

integração vertical é uma estratégia empresarial em que uma empresa controla várias fases da produção ou distribuição de um produto ou serviço. É como se a McDonald's não só fizesse os hambúrgueres, mas também fosse dona das vacas e das quintas.

Portanto, basicamente, é quando uma empresa faz tudo, desde a criação do produto até à sua venda, tudo internamente. É uma estratégia que pode aumentar a eficiência e reduzir os custos, mas também significa que a empresa está mais dependente de si mesma, o que pode ser arriscado se uma parte da cadeia de produção der para o torto.

ABC do Dinheiro

Para além de filosofias, a recém-nascida SpaceX precisava de mão de obra competente. A primeira grande contratação de Musk foi o engenheiro aeroespacial Tom Mueller, que é literalmente o maior especialista mundial em propulsão e, atualmente, é o CEO da Impulse Space, uma startup fundada em 2021 cujo objetivo é tornar-se uma espécie de agência de Táxis para satélites na órbita da Terra. A Impulse Space alcançou uma ronda de investimento de 500 milhões de dólares no início deste mês. Mueller desenhou os reatores dos primeiros foguetões da SpaceX.

Depois de um engenheiro de topo, Musk contratou uma líder de topo. Gwynne Shotwell é o nome mágico da SpaceX, se ela deixar a empresa nada será igual. A executiva é responsável por liderar as operações da empresa durante o dia-a-dia. É o braço direito de Musk. Se Musk é uma criança, Shotwell é a melhor babysitter do planeta, e quiçá do Sistema Solar.

O resto, bem, é história.

A equipa era de topo, a estratégia também e o modelo de negócios era irrefutável. Era uma questão de tempo, e de capital, até a startup SpaceX alcançar o seu primeiro objetivo: o foguetão parcialmente reutilizável.

Mas com o dinheiro dos outros é mais fácil…

Apesar dos ingredientes certos, a indústria dos foguetões não perdoa. Os primeiros lançamentos de foguetões da SpaceX acabaram em explosões embaraçosas.

Acontece. Se fosse fácil, já alguém o teria feito!

Eventualmente, a NASA e a restante Administração dos EUA (na altura liderada por Barack Obama dos Democratas), perceberam a ideia dos foguetões reutilizáveis. De facto, a NASA já tinha tido essa ideia antes. Chamou-se Vaivém (ou Space Shuttle, em inglês), mas para além de ser caríssimo não funcionava muito bem. Do ponto de vista do Governo dos EUA, se a SpaceX conseguisse criar foguetões reutilizáveis, seria ideal. O risco era maioritariamente para Musk, e caso funcionasse, a NASA tinha um dos seus maiores problemas resolvidos para sempre!

O Vaivém da NASA, meio foguete e meio avião, não correspondeu às expetativas.

Assim, apesar dos falhanços da SpaceX, a NASA decidiu apostar na startup. De um ponto de vista da exploração espacial, poderá ter sido um dos melhores investimentos de sempre.

Ou seja, o investimento público da Administração Obama, através da NASA, salvou a SpaceX. Resumindo:

  • a SpaceX foi financiada com dinheiro público (Administração de Barack Obama, do Partido Democrata Americano, e da NASA);

  • O investimento público salvou a SpaceX, de acordo com Musk.

Um Novo Mundo

Já muito escrevemos sobre a 2.ª corrida espacial. É, literalmente, uma nova Era das Descobertas.

Se a 1.ª corrida espacial foi análoga a dobrar o Cabo das Tormentas (chegar à Lua), a 2.ª corrida espacial será análoga a dominar a Rota das Especiarias.

Após o financiamento da Administração dos EUA, a SpaceX conseguiu os seus primeiros sucessos em termos de lançamentos. A startup dos foguetões reutilizáveis tornou-se um negócio com sucesso. Se a Rota das Especiarias é a nova Economia Espacial, a SpaceX vende as caravelas e as naus, nada mau!

A Economia Espacial refere-se ao conjunto de atividades económicas, industriais e comerciais relacionadas com a exploração e utilização do espaço. Este é um termo muito abrangente, que envolve tudo, desde o lançamento de satélites, turismo espacial, construção de estações espaciais, mineração de asteróides, e à prestação de serviços baseados em dados espaciais, entre outros conceitos. A economia espacial envolve entidades públicas como privadas. Este setor tem vindo a crescer rapidamente, impulsionando inovação, criando oportunidades de negócio e contribuindo para áreas como a proteção climática, segurança, defesa, agricultura e comunicações globais.

ABC do Dinheiro

Efetivamente, a SpaceX de Elon Musk baixou o custo de enviar coisas para a órbita do nosso planeta. Não é nada menos que uma revolução industrial.

O foguetão Falcon Heavy da SpaceX consegue meter 1 quilograma na órbita da Terra por menos de 2000 dólares. O Vaivém da NASA fazia o mesmo por mais de 50 mil dólares. É um novo mundo e a SpaceX domina o mercado em termos de preços mais baixos.

E não há competição… basta relembrar a explosão do foguetão da Blue Origin. Mais, a versão made in China do foguete Falcon 9 da SpaceX, esteve perdida em órbita e quase caiu algures na Europa.

Eventualmente, não há nada que torne impossível que a Blue Origin de Jeff Bezos, ou as empresas pseudo-estatais da China, imitem e/ou copiem os foguetões da SpaceX. Vai acontecer mais cedo ou mais tarde. Mas, mais uma vez, não é fácil. Se fosse fácil, já alguém o teria feito!

É também importante não esquecer que a indústria aeroespacial é incrivelmente sensível ao risco. Independentemente se são Humanos, satélites ou rovers, as cargas que são enviadas em foguetões são demasiado valiosas para se perderem… e portanto os clientes da SpaceX têm de ter confiança de que os seus foguetões não vão explodir de forma descontrolada.

Cada falhanço que a competição da SpaceX tem, é um ponto a favor da empresa de Musk. Os seus foguetões Falcon têm resultados de confiança. Se a NASA os usa, todos os podem usar!

Então e Marte?

Tudo começou com uma ambição, uma ambição bem estúpida. Colocar estufas em Marte…

Mas hoje em dia, a máquina de fazer dinheiro da SpaceX é a Starlink, a sucursal que está a construir uma constelação de satélites na órbita da Terra. A ideia é simples: usar satélites para fornecer internet nos sítios mais remotos do nosso planeta. Com o custo de enviar satélites lá para cima tão reduzido, o modelo de negócios da internet via satélite tornou-se viável.

Assim, a SpaceX, dona dos foguetões, criou a Starlink para lucrar com os foguetões e com os satélites ao mesmo tempo. O mais difícil já estava feito.

Hoje, a maior parte dos satélites ativos em órbita da Terra são da Starlink. Há menos de 18 mil satélites funcionais a sobrevoar o nosso planeta, mais de 9 mil deles são da constelação da Starlink. Isto prova a qualidade do modelo de negócios original da SpaceX e as receitas da Starlink provam a qualidade do modelo de negócios da Starlink.

Por exemplo, Portugal não é o mais remoto dos sítios, mas a Starlink de Elon Musk vai duplicar o preço do plano de emergência em Portugal, de 5 para 10 euros. Não parece muito, mas grão a grão enche a galinha (Elon Musk) o papo… Em 2025, a Starlink gerou 11 mil milhões de dólares em receitas, representando 61% das receitas da SpaceX.

Dizem os antigos que mais vale um pássaro na mão, do que dois a voar… se o Starlink é o pássaro na mão e a Lua e Marte são os pássaros a voar, então Elon Musk discorda dos antigos!

É que o plano continua a ser (eventualmente) colonizar Marte, com uma primeira paragem na Lua.

Agora pensas tu: foguetões parcialmente reutilizáveis ainda vá que não vá… agora colonizar Marte!? A NASA mal consegue regressar à Lua, como é que uma empresa privada vai a Marte!?

São perguntas válidas. Vamos, uma vez mais, aos detalhes.

Antes de estar em vias de entrar nos mercados financeiros, a SpaceX financiou-se como uma startup normal, através de várias rondas de investimento que a tornaram uma das empresas privadas mais valiosas do planeta. O nosso estagiário, sabe-se lá como, teve acesso a alguns dos pitch decks que Musk usou para convencer os investidores no passado. Queres espreitar?

Um pitch é uma apresentação curta e persuasiva utilizada para comunicar de forma clara e objetiva uma ideia, projeto, produto ou negócio, geralmente com o objetivo de atrair interesse, apoio ou investimento. Um pitch eficaz destaca o problema a resolver, a solução proposta, o público-alvo, o modelo de negócio e o potencial de crescimento. É comum em contextos empresariais e de empreendedorismo, onde o tempo é limitado e a capacidade de captar atenção é essencial.

Um pitch deck é uma forma moderna, e nada pretensiosa, de dizer diapositivos de PowerPoint para um pitch.

ABC do Dinheiro

Aviso à navegação: a partir daqui esta análise fica um pouco mais técnica. É impossível falar sobre a colonização de Marte, de uma forma rigorosa, sem aprofundar a engenharia que tornaria tal empreendimento possível. Mas vamos lá aos pitch decks!

O primeiro pitch deck data de 2016 e, embora desatualizado, tem uma profundidade não muito comum neste tipo de apresentações. Em cerca de 60 slides, a apresentação explica a arquitetura do sistema de transporte interplanetário proposto por Musk para a colonização de Marte. O financiamento, na altura, tinha como objetivo lançar satélites (eventualmente a constelação Starlink), enviar cargo e astronautas para a Estação Espacial Internacional (mercado agora “dominado” pela SpaceX), e servir de catalisador para os primeiros lucros da empresa.

Neste pitch deck, o objetivo estratégico da SpaceX em 2016, é definido como: reduzir o custo por tonelada enviada para Marte em 5000000%. Para tal, seriam necessários quatro sub-objetivos:

  • Reutilização total do foguetão;

  • Abastecimento de um foguetão em órbita do nosso planeta;

  • Produção de combustível de foguetão em Marte;

  • O combustível certo.

O exemplo utilizado pela SpaceX para justificar o foguetão reutilizável: um Boeing 737 de uso único custaria 500 mil dólares por pessoa. Como voa várias vezes, custa 53 dólares (10 dólares de combustível).

Hoje, a SpaceX ainda não tem o seu foguetão totalmente reutilizável. Será o novo Starship, assim que se tornar operacional após a atual fase de testes.

No entanto, um foguetão totalmente reutilizável não chega. A equação dos foguetes, escrita pela primeira vez por Konstantin Tsiolkovsky, é tirana e cruel. De forma simples, quanto mais combustível cabe no foguete, mais combustível é preciso para levantá-lo da superfície da Terra durante o lançamento. Assim, ter combustível suficiente para chegar a Marte torna exponencialmente mais difícil sair da Terra… a solução é abastecer outra vez, mas na órbita do nosso planeta!

Esta é outra meta de engenharia que a SpaceX ainda não conseguiu demonstrar. Eventualmente, será um dos testes que o Starship terá de ultrapassar.

Depois de reabastecer na nossa órbita, o Starship irá em direção a Marte. Após lá chegar, e aterrar na superfície, terá de reabastecer no Planeta Vermelho. Para tal, algo terá de produzir esse combustível lá, em Marte.

Como se faz combustível de foguetão? Bem, até é simples. Qualquer combustível serve, mas uns servem melhores que outros. Querosene é bom, mas o melhor é uma combinação de metano e oxigénio. Aqui na Terra, se tiveres pressa para levantar voo com o teu foguetão, podes comprar metano e oxigénio e fazer tu a mistura certa.

Agora se a tua questão é como se faz combustível de foguetão em Marte, a resposta é um pouco mais complicada. Lembras-te daquilo sobre a atmosfera de Marte ser venenosa? Boa. A atmosfera é venenosa porque é maioritariamente dióxido de carbono, o tal CO2 do aquecimento global. Isso é mau para os humanos que lá forem, mas até dá jeito para os engenheiros químicos que têm de fazer metano e oxigénio!

Transformar a atmosfera de Marte em combustível é relativamente simples e já se faz algo do género por estes lados. Junta-se ao dióxido de carbono um pouco de hidrogénio, e dessa reação química resulta metano e água (sim, H2O). Separando a água e faz-se hidrogénio e oxigénio. Tanto a primeira reação (usada na Estação Espacial Internacional para reutilizar o CO2 expirado pelos astronautas) como a segunda (eletrólise para produzir hidrogénio), são “senso comum” da nossa civilização. O hidrogénio seria obtido através da hidrólise da água marciana (Marte tem muito gelo a menos de 1 metro de profundidade).

Se quiseres saber mais sobre combustível para foguetões, podes ler a proposta que o nosso estagiário fez à Agência Espacial Europeia (ESA) para produzir combustível renovável com cocó… foi um projeto finalista do Prémio Espaço pela Sustentabilidade de 2024.

Cocó à parte, voltemos ao pitch deck da SpaceX.

Esta é a arquitetura de um sistema de transporte interplanetário proposto pela SpaceX em 2016.

Estes “são” os custos de tal sistema, à data de 2016.

Portanto, em 2016 a SpaceX estimava que conseguiria alcançar um custo por tonelada em Marte de menos de 140 mil dólares. Em 2026, seriam quase 200 mil dólares tendo em conta a inflação.

O próximo pitch deck data de outubro de 2017 e na altura a empresa só tinha “aterrado” dezoito Falcon 9. Hoje, já vai nas várias centenas. Um mês depois desse pitch deck, a SpaceX levantou 100 milhões de dólares com uma avaliação de quase 22 mil milhões… hoje, a avaliação pessimista é de 780 mil milhões.

A SpaceX é muito mais do que um modelo de negócios revolucionário, é uma empresa na vanguarda dos limites da engenharia moderna, incluindo na Ciência dos Materiais.

O número de lançamentos por ano cedo se tornou exponencial.

Design preliminar do Starship, quando ainda era o BFR (Big Fucking Rocket), 1 de 3.

Design preliminar do Starship, quando ainda era o BFR (Big Fucking Rocket), 2 de 3.

Design preliminar do Starship, quando ainda era o BFR (Big Fucking Rocket), 3 de 3.

Ilustração do Starship acoplado à Estação Espacial Internacional.

Arquitetura de missões do Starship até à superfície lunar.

Ilustração de uma base lunar da SpaceX.

Arquitetura de um sistema de transporte interplanetário proposto pela SpaceX em 2017.

Ilustração de uma base marciana da SpaceX (1 de 2).

Ilustração de uma base marciana da SpaceX (2 de 2). O pôr-do-sol é de facto azul em Marte.

Assim como quem não quer nada, a SpaceX também propôs o Starship como meio de transporte Terra a Terra, com a maior parte das viagens a durar 30 minutos…

Portanto, apesar de muitos atrasos no que foi declarado nos pitch decks, os planos da SpaceX continuam semelhantes. Resumindo:

  • Construir foguetões parcialmente reutilizáveis, tornando possível uma nova Economia do Espaço;

  • Beneficiar de foguetões parcialmente reutilizáveis para construir uma constelação de satélites capazes de fornecer internet em qualquer lugar da Terra, gerando assim fluxo de caixa;

  • Construir um foguetão totalmente reutilizável, o Starship;

  • Reabastecer o Starship em órbita;

  • Dar um saltinho na Lua;

  • Produzir combustível de foguetão em Marte;

  • Colonizar Marte.

Neste momento, o Starship ainda está em testes. O último teste validou o voo suborbital.

Ainda faltam muitos pequenos passos até Marte.

Entrar nos Mercados

A Oferta Pública Inicial é como se fosse a cerimónia de final de curso para as grandes empresas. É a última etapa antes de se tornarem “adultas”. Como recompensa, conseguem financiamento diretamente dos mercados financeiros, a uma escala difícil de igualar de outra forma.

Chegou a vez da SpaceX.

No meio desta corrida às bolsas, por parte das startups de Inteligência Artificial (IA) lideradas pela Anthropic e a OpenAI, a SpaceX juntou-se à corrida mesmo antes de ser uma startup de IA…

Foi no início de 2026. Escrevíamos nós sobre a desinformação que circulava acerca de Elon Musk ser trilionário. O termo “trilionário” tem origem na língua inglesa, em português estaríamos a falar de 1 milhão de milhões. Obsceno.

Na altura, esses valores astronomicamente pornográficos resultaram do seu “prometido salário” enquanto líder da Tesla. De momento, todos os objetivos da Tesla permanecem por cumprir, pelo que Elon Musk não será trilionário por esse meio. No entanto, através da SpaceX, poderia até ser possível!

Portanto, com a SpaceX a ser maravilha do império de Musk, qual é a melhor forma de a estragar?

Com uma fusão com os seus “negócios falhados” de IA! 

Depois de comprar o twitter (com “empréstimos” duvidosos) e de o estragar, transformando-o no X. Depois de “comprar” o X com a sua startup de IA a xAI, o que eventualmente levou a pornografia infantil na rede social e a buscas policiais em Paris. Depois de tantos maus resultados, Musk decidiu fundir a genial SpaceX com o resto do seu lixo.

Naquela que foi a maior fusão de sempre, a SpaceX adquiriu a xAI (com a rede social X lá dentro). Na altura, a mega-corporação ficou avaliada em 1,25 milhões de milhões e o objetivo era…

(Estagiário vai ver as suas notas)

Meter data centers em órbita para fazer avanços astronómicos em inteligência artificial?!?

Apesar de alguns sarilhos com as leis da termodinâmica, a verdade é que o novo modelo de negócios poderá bater certo no futuro. Aliás, essa foi uma das previsões da nauta para 2026: data centers no espaço!

Esta fusão não foi propriamente o negócio do século… foi mais Musk a tentar salvar o falhanço do twitter e do seu laboratório de inteligência artificial. Faz parte do seu modus operandi… e que ninguém se admire se ele se lembrar de juntar a Tesla à festa (como escrevemos em fevereiro)!

Antes da fusão, a SpaceX já não era uma startup. Era uma empresa de muito sucesso porque, ao contrário da maioria das startups, a SpaceX tinha lucros. Estamos a falar de receitas à volta dos 15 a 16 mil milhões de dólares com cerca de 8 mil milhões de lucro. São margens simplesmente extraordinárias. No entanto, a xAI perde dinheiro anualmente. E não é pouco. Num ano, a xAI pode perder 6 mil milhões… ouch!

Resumindo: o modelo de negócios dos foguetes reutilizáveis é extraordinário, o da internet via satélite é ainda melhor. O modelo de negócio da IA (embutida na xAI/twitter que agora fazem parte da SpaceX) nem por isso… pelo menos por agora!

Enquanto as primeiras são máquinas de fazer dinheiro, a xAI perdeu 6,4 mil milhões de dólares no ano passado e, mesmo que a IA comece a alcançar ganhos reais de produtividade, a Anthropic, líder tecnológica na área, está agora a pedir aos governos para meter travões aos desenvolvimentos de IA.

Portanto, a IA está a deixar de ser sexy, especialmente depois dos ataques do Papa à tecnologia.

Será que os mercados terão apetite por esta mega-corporação quiçá envenenada pela IA?

Essa é a pergunta dos milhões de milhões de dólares.

E é aqui que entramos na área da especulação.

A história da SpaceX diz-nos que os avanços iterativos nos foguetes reutilizáveis, mesmo que parciais, são capazes de produzir enormes fluxos de caixa através de monopólios de fora deste mundo. Primeiro foram os foguetões Falcon, depois foi a constelação Starlink. Receitas de 16 mil milhões, lucros de 8 mil milhões.

Ninguém pode duvidar de que a Starship, assim que operacional, será capaz de gerar novos monopólios. Seja através de data centers no Espaço, seja através de transporte até à Lua, seja através de transporte interplanetário. E também ninguém pode duvidar de que a Starship será operacional… o progresso tem-se verificado teste a teste e o histórico da SpaceX é fantástico.

Mas a questão fundamental é se a SpaceX vale 1,75 milhões de milhões hoje. A isso, só os mercados poderão responder.

O banco Goldman Sachs, que lidera a entrada da SpaceX nas bolsas, acha que sim. A Morningstar acha que não. O cerne da questão é a xAI embutida dentro da SpaceX. O Goldman Sachs acredita, sabe-se lá como, que a xAI vai passar de uma receita de 3,2 mil milhões em 2025 para uma receita de 322 mil milhões em 2030 (um pouco mais do que as receitas totais da Microsoft nos últimos 4 trimestres). Em 5 anos, um crescimento de 151%… POR ANO!

Se a tese do Goldman Sachs, que é parte interessada, é demasiado otimista, a da Morningstar é mais cuidada. A firma escreve que num cenário otimista, em que a Starship fica operacional e a SpaceX consegue comercializar data centers no Espaço, a empresa de Musk poderá valer, na prática, 2 milhões de milhões com cada ação a valer 160 dólares. No entanto, ainda há muita engenharia pela frente até esse cenário se tornar real.

Por agora, a SpaceX vai encaixar 75 mil milhões de dólares através da entrada na bolsa. Elon Musk será o primeiro trilionário e a empresa terá capital para tentar tornar rentável o seu modelo de negócios em torno da Inteligência Artificial.

A Nossa Perspetiva

No início do ano, antes sequer da fusão da SpaceX com a xAI, a nauta previu data centers no Espaço. Computação em órbita parece ficção científica, e por agora é, mas até as gigantes europeias como a Thales estão a ponderar meter data centers no espaço sideral. Recentemente, a startup Starcloud lançou o primeiro satélite para testar o conceito.

Mas mais importante do que a questão serão data centers no Espaço possíveis? é a questão o que farão os data centers no Espaço?

A computação para IA precisa que a IA seja um negócio viável. Isso continua por provar. As gigante de IA estão literalmente a queimar dinheiro e os ganhos de produtividade ainda não são certos. Será a IA uma bolha? Ainda não se sabe.

Se sim, o que farão os data centers no Espaço? Colocar uma estufa em Marte não será de certeza.