
Duas geógrafas brasileiras, uma ilha no meio do Atlântico e uma pergunta que nos acompanhou do laboratório ao mercado: por que é tão difícil transformar imagens de satélite em respostas?

Sete Cidades, Açores.
Toda empresa tem uma história de origem. A nossa começa muito antes da empresa, em frente a uma tela de computador no Brasil, com uma menina de dez anos fazendo duas pesquisas seguidas no Google.
A primeira foi: como ser uma adulta que trabalha com vulcões? A resposta apontou para um mestrado em Vulcanologia na Universidade dos Açores. A segunda pesquisa veio logo depois, e era bem mais simples: onde ficam os Açores?
Entre os resultados apareceu uma foto do Vulcão das Sete Cidades. Foi amor à primeira vista. Naquele dia, a Rafaela decidiu que, quando crescesse, iria estudar nos Açores e ver isso com os próprios olhos.
Os anos passaram, e a decisão tomada aos dez anos de idade não mudou. Nós duas estudamos no mesmo curso de Geografia no Brasil e, uma de cada vez, atravessamos o Atlântico. A Rafaela chegou em 2018 para o mestrado em Vulcanologia. A Jéssica veio em 2019.
Aqui, nos Açores, trabalhamos com deteção remota: estudar o território a partir de imagens captadas por satélites. É uma área fascinante, que permite observar um vulcão, uma costa ou uma floresta sem estar lá. Mas quem trabalha com isso no dia a dia sabe que o caminho entre a imagem e a resposta raramente é curto.
O problema que vivíamos todos os dias
Antes de qualquer análise, é preciso descobrir qual sensor serve para a pergunta que se quer responder. Depois, encontrar a imagem certa, conseguir acesso a ela ou comprá-la, escolher o algoritmo de processamento, processar e, por fim, transformar tudo isso num relatório que alguém consiga ler e usar.
É um processo complexo e demorado. E nos Açores ele tem uma camada extra de dificuldade: as nuvens. Em muitos dias, o arquipélago simplesmente não aparece nas imagens óticas, o que obriga a recorrer a sensores específicos.
Com o tempo, percebemos que boa parte do nosso trabalho era repetitiva. Os mesmos passos, as mesmas escolhas, os mesmos ajustes, projeto após projeto.
Quando duas competências se encontram
A virada veio quando a Jéssica fez um curso de Desenvolvimento de Aplicações Web na Universidade dos Açores. Uma das premissas de quem desenvolve para a web é que não se reescreve o código a cada novo utilizador: constrói-se uma estrutura que funciona para todos. Olhando para as tarefas repetitivas da deteção remota, ela percebeu que muitas delas poderiam ser muito mais fáceis através de uma interface web.
Ao mesmo tempo, a Rafaela trabalhava como gestora de projetos e com processamento de dados em projetos e em empresas europeias. Conhecia de perto o ciclo completo, do pedido do cliente à entrega do resultado.
Foi numa conversa, trocando experiências, que as peças se encaixaram. Uma de nós sabia o que precisava ser feito com os dados. A outra sabia como construir uma ferramenta para fazê-lo de forma mais simples. Por que não unir as duas coisas?
O que é a Easymap, na prática
A Easymap é uma plataforma de inteligência geoespacial. Transformamos dados obtidos por satélites e drones em indicadores que ajudam organizações a planejar e gerir o território, com aplicações em agricultura, ambiente, energia e infraestruturas.
Trabalhamos sobretudo com empresas de infraestruturas críticas e instituições governamentais. Para análises mais amplas, usamos dados públicos tratados com algoritmos desenvolvidos a partir da literatura científica e da nossa experiência. Quando é preciso mais detalhe sobre um ponto específico, complementamos com imagens de maior resolução. Em testes internos, conseguimos reduzir em até 98% o tempo de processamento em relação aos métodos tradicionais.
Dividimos o trabalho de acordo com o que cada uma faz melhor. A Rafaela, como COO, cuida da gestão de projetos, do contato com clientes, dos contratos e coordena a nossa presença nas redes. A Jéssica, como CEO, está à frente do desenvolvimento da plataforma, do desenvolvimento e implementação de novos algoritmos, das novas funcionalidades e da segurança informática.
Conseguimos reduzir em até 98% o tempo de processamento em relação aos métodos tradicionais.
A burocracia também é um território a mapear
Se tivéssemos de apontar o que foi mais difícil aprender, não seria nada técnico. Seria a burocracia. Abrir e gerir uma empresa envolve processos que nenhum mestrado ensina, e, para duas imigrantes, cada etapa tinha as suas próprias dúvidas.
Tivemos sorte, aquela que sempre acreditamos que também se constrói, de contar com um excelente contabilista, que nos passa segurança a cada passo. Para além disto, pudemos contar com a excelente equipa da InUAc, a incubadora de base tecnológica da Universidade dos Açores, onde a Easymap está incubada desde janeiro de 2026. Neste processo aprendemos que não é preciso saber tudo sozinhas mas saber a quem perguntar.
A ciência como pilar
A maior lição destes primeiros tempos foi perceber que, numa empresa que nasce da tecnologia e da investigação, a proximidade com a ciência não é um detalhe mas sim o pilar principal.
Por isso, a nossa casa é a InUAc. Estar ali nos mantém perto da investigação que se faz na universidade e nos lembra, todos os dias, de onde viemos.
E a ciência continua presente de forma muito concreta: a Rafaela está terminando o doutorado enquanto constrói a empresa. Essa é, sem dúvida, a parte mais complexa. O que tem funcionado é estipular pequenas metas. Uma de cada vez, o impossível vai ficando possível.
Numa empresa que nasce da tecnologia e da investigação, a proximidade com a ciência não é um detalhe mas sim o pilar principal.

Vista do Atlântico a oeste das Sete Cidades, Açores.
Deteção remota, a partir de uma ilha
Muita gente pergunta como é empreender a partir de uma ilha no meio do Atlântico. A nossa resposta costuma surpreender: os Açores são uma vantagem.
Vivemos a tranquilidade de estar a poucos minutos do escritório e, ao mesmo tempo, a duas horas do ritmo acelerado do continente. E, como o nosso trabalho é justamente a deteção remota, a distância nunca foi um obstáculo. Podemos estar perto dos nossos parceiros e a poucas horas de qualquer grande centro.
Até as nuvens, que no início pareciam um problema, viraram aprendizado. Desenvolver soluções que funcionam num dos lugares com maior cobertura de nuvens da Europa nos preparou para trabalhar em outras ilhas e zonas costeiras. Hoje, um dos nossos projetos abrange 13 ilhas e zonas costeiras europeias, cada uma com os seus próprios desafios.
Os Açores são uma vantagem.

Nuvens sobre as Sete Cidades, Açores.
Os próximos passos
Vem aí um novo grande projeto do qual a Easymap fará parte, e que tem os Açores como área de estudo. Para nós, isso tem um significado especial: é uma honra poder devolver ao arquipélago um pouco daquilo que ele nos dá desde que chegamos.
Queremos também estreitar ainda mais a ligação com a universidade e nos especializar nas áreas que os nossos clientes mais procuram.

Jéssica Uchôa e Rafaela Tiengo, co-fundadoras da Easymap. Fotografia de André Mendonça.
Um conselho: comece
Se alguém na academia está pensando em empreender, o nosso conselho é simples: comece.
É preciso errar para aprender. E, assim como na ciência, um resultado negativo também é um resultado. Ele mostra o que não funciona e aponta para o próximo passo.
Afinal, tudo começou com uma menina de dez anos que decidiu, a partir de uma foto, onde queria estar. Às vezes, o mapa só aparece depois que se começa a caminhar.
Artigo escrito por Rafaela Tiengo e Jéssica Uchôa, co-fundadoras da Easymap, no dia 29 de setembro de 2026. Publicado no dia 30 de setembro de 2026.





