Se perguntarem a qualquer produtor de vinho pelo mundo fora, incluindo portugueses, qual a sua região favorita ou de referência, a maior probabilidade é que apontem para a França e de lá digam a Borgonha, ou Bordéus, ou Jura.
O mesmo para colecionadores, sommeliers, e apreciadores de vinhos finos.
Onde está o mapa do vinho de Portugal?
De cá não saem os vinhos mais caros nem os vinhos mais procurados do mundo. Não são os vinhos mais falados nem os vinhos mais bebidos. Também não são os vinhos mais baratos nem os mais bem distribuídos.
Em Portugal consideramos o nosso vinho como o melhor do mundo. De facto sabe bem, é bem feito e tanto é barato como está em todo o lado.
Mas fora do país, esta imagem não tem impacto. Os gregos podem-se rever nisto, os italianos também, por aí fora.
O consenso é que a França tem os vinhos de mais alta qualidade e são franceses os vinhos que toda a gente está disposta a pagar mais por.
Então porquê?
No futebol, porque é que é a Premier League a liga mais prestigiada? Pelo menos na opinião da maioria… há muitos craques a saírem de tantos países, e mesmo assim é lá que todos querem jogar.
Entretenimento. Porque é entre Nova Iorque e Los Angeles que encontramos a âncora cultural do Ocidente. O standard de música e cinema por lá anda. Os artistas e empresários que mantêm a indústria viva também não têm que ser americanos de nascença. Mas precisam sim de estar expostos ao padrão de lá, e ter um output forte.
Nestes dois casos e no do vinho Francês, existiram esforços e foco contínuos durante décadas, que criaram algo que se separa dos restantes. O investimento de energia e capital resultou num nível de exigência alto e numa estética própria.
Depois adicionamos o ingrediente essencial e sem o qual esta supremacia não acontece: cadeias de distribuição junto de um mercado personalizado e esculpido.
Mas isto é falar de consenso. A assumir que isso é o melhor objetivamente.
Qual a melhor música do mundo, ou o melhor filme do mundo? Cada um de nós tem o seu favorito e as suas razões para o ser. Alguns de nós não têm favoritos também, and that’s okay.
O que conhecemos desde cedo torna-se querido e preferido. E ao mesmo tempo explorar mais sobre vinho não é instintivo ou fácil de começar. É um mundo entendido como presunçoso, e pode ser facilmente avassalador e intimidante.
É um universo que contém a mesa da tasca e um dos mercados de luxo mais exclusivos do mundo.

Em Portugal o vinho está completamente ligado à refeição. É devido a essa parceria que somos o maior consumidor de litros de vinho do mundo per capita, e em certa parte é por essa parceria que a nossa vinicultura também sobreviveu tantos séculos.
É um universo que contém a mesa da tasca e um dos mercados de luxo mais exclusivos do mundo.
Mas a meu ver, desta parceria também resultou um nível de exigência baixo sobre o vinho, e um foco do mercado na quantidade e não na quantidade. Como descrevo no artigo anterior aqui na nauta.
A atitude em geral com o vinho em Portugal é que é um alimento, e não uma obra de arte - apesar de cá haver muita! Na França, há também uma robusta cultura alimentar, e muito vinho de desfrutar e acompanhar a refeição, mas quanto mais procuramos mais arte encontramos. Por lá se elevou a técnica de fazer vinho fino durante muitas décadas.
Há sempre múltiplos fatores a considerar quando procuramos “o motivo” para algo. Um destes fatores que não podemos ignorar é a ditadura, o protecionismo e o cooperativismo implantados durante décadas em Portugal. Algo parecido aconteceu em Itália e Espanha, estando esses países numa situação mais parecida do que diferente da nossa.
A atitude em geral com o vinho em Portugal é que é um alimento, e não uma obra de arte - apesar de cá haver muita!
Assim, a França é a rainha na produção de vinho de qualidade, porque desde há muitas décadas que muita gente se esforça para elevar a qualidade do vinho. Conhecendo mais os solos onde as vinhas crescem, como o clima as afeta, e como destacar as características de todos estes elementos através da vinificação.
Mesmo dentro da França, são a Borgonha e Champagne quem têm a maior atenção, de longe. Ambas focam-se quase exclusivamente no uso de Chardonnay (casta branca) e Pinot Noir (casta tinta). Sim, de duas castas apenas. E isto ajuda a que de lá possam sair as melhores e mais prestigiadas garrafas. Muitas delas não são acessíveis, mesmo para quem queira gastar o dinheiro. Como certos carros e certos relógios, o mercado de luxo foi esculpido. Neste caso, a escassez limitada ao tamanho da vinha, é um mal que vem por bem.
Portanto, os vinhos mais caros, os vinhos com pontuações críticas mais altas, os vinhos mais procurados são franceses. Os vinhos podem ser de beber sozinhos, de colecionar, de oferecer, de celebrar. Tal como um disco ou um relógio ou uma viagem.
Há um caso a fazer e discutir acerca dos vinhos de Portugal, e como podem também ocupar exatamente o mesmo espaço que os franceses ocupam agora. Isto é algo que escreverei no futuro.
Fatores principais do caso Francês:
A tradição e história: foram os Romanos que espalharam as vinhas pela Gália. Elas estabeleceram-se como cultura. Mais tarde os monges medievais começaram a estudar, a mapear os melhores sítios para plantar vinha, e a refinar o processo de fazer vinho. Isto durou séculos. O vinho moderno, deve a base técnica a estes monges.
A mestria do terroir: a uva tem pronúncias químicas diferentes dependendo do solo, do clima e da altitude. Compreender o que estes elementos fazem à casta, e como se mostram depois da fermentação, é a arte de fazer o vinho antes da vindima. Mais uma vez, nos ombros dos séculos de estudos pelos monges, contudo mantém-se hoje.
Controle de qualidade e origem: por último e fulcral, é proteger o trabalho dos produtores e criar o mercado para todo este esforço. Comunica aos consumidores os conteúdos da garrafa (exemplo: DOC Chablis, vai ser Chardonnay com foco no nervo da acidez, e sem uso de barrica). E também ajuda a manter o nível de qualidade alto, porque todos os vinhos têm que ser aprovados por comité.
Mas acima de tudo, a ativação de marca e criação do mercado!
Qualquer restaurante com estrela Michelin vai ter uma vasta seleção francesa. Qualquer club para high rollers vai ter Dom Perignon ou Cristal de Louis Roederer. A partir de certo ponto na história (e pode-se argumentar que a meados do século XIX), O dinheiro começou a sentir-se atraído por estes vinhos e começou-se então a cristalizar a coroa Francesa.
A imagem acima é um pequeno exemplo de toda a energia e recursos que elevaram o vinho francês ao topo. E isto é um simples mapa das vinhas e respetivo tipo de solo numa região desconhecida para a grande maioria das pessoas.
É a sub-região de Bandol, dentro da afamada terra de rosés, Provence. Na costa mediterrânica francesa, perto de Marselha.
Em Portugal, onde o solo, o clima, as castas e agora o conhecimento existem, temos tudo para levantar o nível mais uma vez. O meu apelo é: apreciar mais profundamente o vinho que temos, elevar a exigência de consumo em certas alturas (sim, porque a canequinha de branco da casa vai ser sempre um grande prazer). Só assim os nossos produtores podem manter os pés na terra.
Gostava muito de ver um mapa parecido a este aqui em cima sobre o Vale do Cávado, uma das sub-regiões dos Vinhos Verdes, e onde eu cresci.
Como vendedor de vinhos portugueses nos Países Baixos, tenho como maior obstáculo a obsessão mundial pelos vinhos franceses, mas logo a seguir é a representação inconsequente e porosa do que se faz em Portugal. Este mapa simboliza os recursos utilizados para a compreensão e comunicação das zonas vinícolas, da segurança do produtor num mercado com força.
Não dá para esculpir o próprio lugar no mercado, de enquadrar o vinho como único, sem ter de base um produto bom. Daí é que se trabalha para cima.
Artigo escrito por Peter Carvalho, importador de vinhos português em Roterdão. O autor sugere ainda esta leitura alternativa.





