“Existem décadas durante as quais nada acontece, e semanas onde acontecem décadas.”

Vladimir Lenin

Esta é a tradução de uma frase atribuída ao ditador soviético Vladimir Lenin que espelha bem o que foi 2025; um ano que pareceu durar uma década, mas que agora, ao olhar para trás, apetece dizer: já passou? 

O regresso do… rei?

A Euronews classificou o ano de 2025 como um ano turbulento, em que geopolítica, economia e tecnologia se cruzaram de forma intensa. O evento que mais contribuiu para tal turbulência foi o regresso de Donald Trump à Casa Branca. Trump 2.0 chegou com a força toda, agitando uma agenda agressiva em matéria de imigração, tarifas e segurança, que reconfigurou o relacionamento dos EUA com… bem, toda a gente, na verdade.

A palavra do ano podia ser “tarifas”. A administração Trump lançou um pacote generalizado de direitos aduaneiros, que incidiu sobre praticamente todos os países do mundo, e até algumas ilhas. O objetivo oficial foi o de proteger a indústria americana. O objetivo real é: mostrar músculo ala Tony Soprano. O pacote tarifário forçou muitos países a se sentarem à mesa das negociações. A UE, o Reino Unido e vários outros países tentaram de tudo (até algumas soluções criativas) para apaziguar o Don e evitar uma guerra comercial em larga escala. A Europa acabou por aceitar tarifas adicionais em troca de acesso preferencial a energia e armamento norte‑americano, mostrando como o comércio se tornou um instrumento central de pressão geopolítica.

Enquanto o presidente norte-americano tentava vender o art of the deal, o presidente do Banco Federal tentava outro tipo de arte: fazer o balofo avião que é a economia americana aterrar sem partir uma (ou duas) asas. O famoso soft landing foi o objetivo de Jerome Powell: A Fed começou a cortar juros, mas com a calma de quem atravessa um campo minado. Os resultados parecem ser razoáveis: a inflação tornou-se civilizada, o crescimento económico foi not bad.

As Big Tech, potenciadas pela IA continuaram a mandar no mercado. NVIDIA, Microsoft, Apple & companhia sustentaram o S&P500 que, apesar de um susto inicial após a chegada de Trump, continuou a bater recordes.

Europa

A Europa teve um ano… meh. Encurralados entre um império cada vez mais autoritário e expansionista e agressivo, e a Rússia, os europeus tiveram de repensar seriamente o seu futuro, arregaçar as mangas e tomar as decisões que precisam ser tomadas; não sem antes encetarem em várias rondas negociais, reuniões e cimeiras. O BCE fez o seu papel, controlou a inflação e continuou a cortar as taxas de juro. 

A Alemanha, a locomotiva económica europeia, teve um ano parada na oficina. O crescimento foi quase zero (e chegou a ser negativo em alguns trimestres). O modelo económico germânico baseado em energia barata e exportações industriais deixou de funcionar como antes. A solução? Investimento em defesa. E esta, hein?

A França manteve o seu clássico equilíbrio gaulês: crescer um bocadinho, gastar muito e discutir ainda mais. O Reino Unido em 2025 continuou a viver no pós-Brexit eterno. O crescimento foi parco, mas a inflação foi controlada. Feitas as contas, ajuda ter uma capital que é um dos maiores centros financeiros do mundo. O governo italiano passou um ano inteiro sem implodir. Já é notícia. A nossa vizinha Espanha foi um dos melhores alunos europeus em 2025. A economia dos nuestros hermanos cresceu acima da média europeia, apoiada num boom turístico, e na aposta em investimentos em energias renováveis e tecnologia.

Deixem a China dormir, pois quando ela acordar, o mundo tremerá.

Napoleão Bonaparte, talvez.

Alguém quer acordar o dragão?

A China passou o ano a evitar crises: no consumo interno, no mercado imobiliário, e nas relações com os EUA. O gigante asiático precisa de conquistar terreno. Ah, se houvesse uma ilha ao largo da China com uma vibrante indústria de semicondutores e milhões de falantes de mandarim…

Portugal

Portugal, como sempre, passou por 2025 sem ligar a muito do que se passa lá fora. No entanto, lá fora estavam atentos. O The Economist elegeu a nossa economia retangular como a melhor de 2025. Sim… é real! O GOAT económico de 2025!

Venha daí o vinho verde e as… espera. Mas, porquê mesmo? A nauta explica:

A economia tuga mostra bons indicadores: o desemprego está em mínimos históricos, as exportações aumentaram imenso e a dívida pública está a baixar. O turismo, que corresponde a mais de 20% do PIB, está a bater recordes. O número elevado de imigrantes que o país recebeu - independentemente de considerarmos isto uma boa notícia ou não - é um sintoma de bom desempenho, pois ninguém quer emigrar para uma economia em declínio.

Na edição da nauta de 13 de dezembro de 2025.

Apesar desta distinção, os portugueses não estão totalmente convencidos com o Governo da Aliança Democrática, que venceu as eleições com maioria relativa após o affair Spinunviva. Umas das maiores polémicas centrou-se no anteprojeto de reforma da Lei Laboral, que culminou numa Greve Geral, a primeira desde 2013. O PSI teve um ano de recordes.

 

Resto do Mundo

No plano internacional, a guerra da Rússia na Ucrânia entrou no quarto ano, enquanto um frágil cessar-fogo em Gaza, mediado pelo vencedor do prestigiado Prémio da Paz da FIFA, expôs tanto a exaustão dos conflitos como os limites da diplomacia global. Em paralelo, os EUA e Israel realizaram ataques decisivos contra infraestruturas nucleares iranianas, alimentando o receio de uma nova escalada no Médio Oriente.

Já no continente africano aconteceram… vamos ver as notas… golpes de Estado.

 

Empreendedorismo

No empreendedorismo, consolidaram‑se hubs tecnológicos em Lisboa, Porto e Braga, com startups a captar rondas relevantes em setores como fintech, saúde digital e software B2B, ainda que num ambiente de financiamento mais seletivo e exigente quanto à rentabilidade. A combinação de talento qualificado, custos competitivos e instrumentos como o PRR, Portugal 2030 e regimes fiscais para investimento estrangeiro reforçou a atração de centros de inovação e de desenvolvimento de produto para o território português, aproximando o ecossistema local dos principais polos europeus, embora ainda com desafios em escala e capital de risco.

Em 2025, várias empresas fizeram parte da nossa rubrica Nauta da Semana. Não foi por acaso. Todas elas ajudam a perceber, na prática, como se cria valor, como se atrai investimento e como boas ideias podem transformar-se em negócios sólidos.

Destacamos algumas das empresas que fizeram parte da nossa rubrica. A escolha não foi só sobre o hype ou o dinheiro que levantaram, foi sobre execução, ambição e impacto real. E porque ajudam a perceber como se cria valor na economia real.

A Musiversal é uma plataforma que liga músicos e produtores de todo o mundo para gravarem música remotamente, como se estivessem no mesmo estúdio. Em 2025, recebeu uma ronda de financiamento Série A de peso (6 milhões de dólares) e que confirmou algo importante: a economia criativa também pode ser um negócio sério.

Sword Health, 21 de junho de 2025

A Sword Health dispensa apresentações. Atua na área da saúde digital, combinando IA com acompanhamento clínico para tratar dores musculares e possibilitar a reabilitação à distância. O unicórnio português voltou a atrair capital em 2025 ao levantar 35 milhões de euros, mostrando que as startups portuguesas podem jogar na liga dos grandes, especialmente em áreas onde há muito dinheiro e impacto social envolvido.

A YPlasma é deep tech a sério e mostrou-o numa ronda seed de 2,1 milhões de euros. A startup trabalha com tecnologia de plasma para aplicações industriais mais eficientes e sustentáveis, prometendo dar um fim digno às ventoinhas barulhentas e aos sistemas de refrigeração líquida. Inovação científica e aplicações industriais reais fazem dela uma aposta forte.

A Voltrac junta robótica, agricultura e autonomia. Desenvolve veículos autónomos e elétricos para trabalhos agrícolas, focados em aumentar a produtividade e reduzir custos no setor. Num mundo cada vez mais preocupado com sustentabilidade e produção alimentar, a Voltrac destacou-se por atacar um problema estrutural da economia, com tecnologia aplicada e potencial de escala global.

A proGrow usa tecnologia e dados para ajudar produtores agrícolas a tomar melhores decisões, reduzir desperdício e produzir de forma mais eficiente. Num contexto de subida de custos e preocupação com sustentabilidade, este tipo de solução torna-se cada vez mais relevante.

Estas empresas mostraram que:

  • negócios reais criam valor ao resolver problemas concretos;

  • inovação, quando bem executada, atrai capital;

  • Portugal pode competir globalmente.

Apesar de representarem diferentes setores, têm algo em comum: mostram que em Portugal não faltam ideias, talento nem capacidade de construir negócios competitivos à escala global.

2025 terminou como um ano de reconfiguração da ordem mundial: alianças questionadas, cadeias de valor sob pressão, conflitos sem solução à vista e um bloco europeu obrigado a equilibrar segurança, competitividade económica e defesa dos seus valores num contexto internacional cada vez mais imprevisível. 2026 promete!